Regina Celi Machado

Continuando a proposta para 2010 de abordar assuntos mais técnicos ligados ao edifício igreja, neste artigo falaremos sobre o local para a construção ou expansão do edifício igreja.

O ideal seria poder escolher o local perfeito para o que se quer construir, com espaço para tudo que queremos e precisamos, com topografia favorável e documentação correta. Mas, na maioria das vezes, ou a comunidade ganha um terreno, ou ocupa um terreno que sobrou de algum loteamento, ou o dinheiro da comunidade não dá para comprar o lugar sonhado. O que fazer então? Saber usar o que se tem é meio caminho para diminuir os problemas, se cercar de cuidados e planejar é outra parte do caminho.

Escolha do terreno

Se a comunidade vai comprar um terreno é importante pedir ajuda de um profissional, um corretor de confiança para orientar quanto ao real valor do imóvel e a documentação, um arquiteto ou engenheiro que possa avaliar a topografia e a natureza geológica da área. Dependendo do que vai ser construído, um terreno pode ser inviável em razão de um forte declive ou a presença de lençóis d’água ou jazidas. Os vizinhos também são bons consultores, eles conhecem a região, o comportamento do solo e como o local se comporta durante as chuvas.

Nas grandes cidades já não há áreas muito grandes sobrando, o mais certo é encontrar terreno de testadas (largura da frente do ter- reno) muito estreitas e, dependendo do local, os códigos de edificação e as leis de uso e ocupação do solo limitam muito a área possível de ser edificada. Nestes casos, para evitar a construção de um espaço com nave muito estreita e comprida, que dificulta a participação da assembléia na ação litúrgica, o arquiteto e a comunidade têm que encontrar soluções nem sempre fáceis.

O projeto da igreja São Pedro em Santana de Parnaíba- SP aproveitou o forte declive e frente para duas ruas. A construção foi feita em etapas e sem cortes e arrimos. A rua de cima dá acesso à igreja e a rua de baixo acesso à secretaria e salas de catequese. No pavimento intermediário está localizado o salão de festas e reuniões.

Um terreno de esquina ou com frente para duas ruas pode parecer interessante, mas é bom saber que o recuo obrigatório de frente para ruas é sempre muito grande e pode inviabilizar um projeto. Verificar se naquela zona da cidade pode-se construir igrejas é outra preocupação que deve ser considerada.

Antes de adquirir um imóvel não custa dar um pulo na prefeitura e perguntar o que pode ser construído no local, quais os recuos exigidos, qual a legislação de uso e ocupação do solo.

Topografia e orientação

É importante também observar a insolação do terreno. Estudar o caminho do sol, de que lado ele nasce e morre. Pode-se tirar partido da luz natural para iluminar o local e valorizar algumas áreas. Mas devem-se evitar aberturas para o sol que possam prejudicar a visão dos fiéis ou aquecer demasiadamente o local.

A forma do terreno já ajuda a pensar na forma da futura construção. Deve-se harmonizar a construção com o terreno, observar a topografia e a situação do entorno. Evitar grandes cortes e aterros para não encarecer a obra. E conservar o máximo a vegetação nas áreas não edificadas evitando a lavagem da terra e conseqüentes erosões.

Escolher um terreno plano se possível pode representar muita economia com obras de terra, fundações e estruturas de concreto, além de reduzir a zero os custos com contenções de arrimo. A avaliação da resistência do solo também é muito importante, isso pode ser feito por uma empresa de sondagem ou verificando as obras edificadas na vizinhança. Caso o resultado apresente um solo de boa resistência superficial, e sendo a obra  a construir de apenas um pavimento, será possível utilizar uma fundação tipo baldrame corrido, que consome menos ferragem e utiliza um concreto mais barato. Nunca se precipite em fazer obras de terra como terraplanagens e cortes antes dos projetos de arquitetura e estrutural estarem prontos e sem a orientação de um engenheiro, pois poderá perder dinheiro com serviços desnecessários. O arquiteto poderá tirar proveito da topografia e dos acidentes naturais do terreno fazendo um projeto adequado e economizando com redução das obras de terra.

Não se pode deixar de verificar se o local é servido de água encanada, se há rede de águas pluviais e de esgoto. Caso contrário deverá ser previsto um poço para abastecer de água o local e fossa para o esgotamento sanitário.

Uso do espaço

Não é raro vermos construções feitas sem planejamento. Primeiro se constrói um salão porque a verba é pequena, e quando mais tarde a comunidade quer ampliar o espaço, fazer salas de catequese, salão e secretaria, encontra dificuldade. O melhor é planejar tudo o que se quer logo de cara, vai fazendo as construções aos poucos, mas já sabendo onde cada espaço ficará e tudo se comunicando, ao contrário de parecer uma colcha de retalhos aproveitando mal o terreno.

Com o terreno definido e sabendo o que a legislação permite construir, a comunidade deve pensar em um programa, listar tudo que quer e precisa construir, e definir as prioridades. Mas o projeto deve ser global para que no final tudo esteja em harmonia e para que o terreno possa ser aproveitado ao máximo.

No estudo do espaço é importante pensar para onde serão abertos os vãos de ventilação e iluminação, e não se esquecer do conforto térmico e acústico. Tudo isso se pensado e planejado no início vai evitar dores de cabeça e desperdícios. Um bom projeto pode evitar gastos de energia desnecessários com iluminação e ventilação artificiais, e prever um bom conforto acústico e térmico.

 

Regina Céli Machado
arquiteta – reuna.arquitetos@terra.com

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. A escolha do local da igreja – primeira parte, Páscoa de Cristo, páscoa do universo. São Paulo, 218, p. 23 a 24, Mar/Abr 2010.

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