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Segurança da igreja edifício e da Igreja – Assembléia reunida

Regina Celi Machado

Trataremos neste ano de 2010 de assuntos mais técnicos ligados ao edifício igreja. Nosso objetivo é sempre um edifício a serviço da assembléia reunida para a ação litúrgica. Começaremos com o tema da segurança.

Segurança no espaço de celebrar

No dicionário encontramos para a palavra segurança alguns significados: estabilidade e firmeza; estado ou condição de uma pessoa ou coisa que está livre de perigos, de incertezas, asseguradas de danos e riscos eventuais e afastadas de todo mal; estado daquilo que é firme, seguro, inabalável, ou daquele com quem se pode contar ou em quem se pode confiar inteiramente.

Costumamos afirmar que no espaço da igreja nada é por acaso, tudo fala, cada detalhe dentro do espaço de culto transmite informações sobre a fé e sobre a forma de pensarmos e estarmos no mundo e nossa relação com as pessoas.

Qual experiência se pode fazer em um espaço instável e que oferece perigo à vida e à saúde das pessoas? Por outro lado, que experiência faz o fiel num espaço onde se sente livre de todos os perigos, protegido, seguro? A liturgia e o espaço nos educam, formam a nossa fé. O espaço pode ser aliado da formação de uma fé firme, segura, inabalável, confiante.

Falaremos aqui da segurança do imóvel, do patrimônio, mas sobretudo, trataremos da segurança que Quando vamos construir ou reformar um edifício público temos que estar atentos à legislação específica sobre segurança. Há obrigatoriedade de aprovação do projeto de construção ou reforma na Prefeitura local e no Corpo de Bombeiros. Os projetos devem estar em conformidade com as legislações pertinentes para que a obra possa obter o alvará de construção, o habite-se e a licença de funcionamento.

A concretização de um projeto para a construção passa por diferentes etapas e a primeira, depois de um projeto arquitetônico concebido e amadurecido, dever ser a base da obra. Nada fica estável se não houver uma base sólida que o sustente. Pensar na qualidade do terreno providenciando uma sondagem e projeto estrutural é um sinal de começo sólido.

Capela de São Francisco – Colina de São Francisco – São Paulo. Fechamento frontal com cerca e vegetação.

 

Alguns itens essenciais de projeto:

Pelo menos duas aberturas de ingresso e saída autônomas são necessárias, com largura não menor que 2 metros e abrindo para fora com iluminação indicativa da rota de saída.

Os corredores de uso comum devem ter no mínimo 1,20 m de largura, os de uso restrito com 0,90 m. Também as escadas de uso comum devem ter largura de 1,20 m e as escadas de uso restrito 0,90 m. O pé direito (medida entre o piso e o forro da igreja) deve ter no mínimo 4 metros de altura. E a área deve ser dimensionada segundo a lotação prevista.

Deve haver ventilação natural ou por dispositivos mecânicos capazes de proporcionar suficiente renovação de ar. Deve haver reserva de água com vazão adequada para hidrantes quando a metragem quadrada construída ultrapassar 750 m² e extintores em lugares determinados pelo Corpo de Bombeiros para uso em caso de incêndio.

Alguns itens exigidos pelos órgãos públicos visam o conforto mínimo do usuário, outros visam à segurança em caso de tumulto. Sem o mínimo de conforto o fiel não pode participar adequadamente da liturgia. Com calor excessivo, falta de circulação de ar, pouca iluminação e confinamento, não é possível uma boa participação na liturgia.

Alguns itens que exigem manutenção constante

A rede elétrica requer não só um bom dimensionamento como também materiais adequados e protegidos conforme a legislação, e com constante manutenção. Não é raro vermos fios comidos por roedores, fiação exposta, executadas na maioria das vezes para atender necessidades que não foram previstas quando da elaboração do projeto, provocando curtos circuitos e colocando em risco as pessoas.

A estrutura da edificação deve estar sempre protegida. Em muitas construções é costume deixar a ferragem de espera de um segundo pavimento ou de uma futura torre à mostra durante anos a fio. Esta ferragem não só fica comprometida, como compromete toda aquela que já foi concretada. Quando alguma ferragem aparece sob um recobrimento que se desprendeu da estrutura (viga ou pilar), deve ser imediatamente tratada e de forma adequada para que a estabilidade não fique comprometida. Muitas vezes alguém da comunidade, com a melhor das boas intenções, não trata da corrosão e cobre essa ferragem oxidada com uma massa onde mistura cal, o que acaba prejudicando mais, pois a cal corroê o ferro e coloca em risco toda a estrutura com o tempo.

Alguns itens para respeitar o usuário

Pisos antiderrapantes devem ser previstos em áreas externas que podem receber chuva, e na área perto da pia batismal também; guarda corpo em todas as escadas e rampas para auxiliar quem tem dificuldade de locomoção, inclusive no acesso ao presbitério; banheiros em local de fácil acesso sem, no entanto, estarem dentro da igreja, e com número de vasos sanitários, mictórios e lavatórios como determina a legislação. Bebedouro também em lugar acessível, mas não dentro do salão de culto.

Banheiros e bebedouros não podem atrapalhar o desenvolvimento da liturgia. A assembléia não pode desviar sua atenção para o entra e sai de banheiros e uso de bebedouro, e nem para os barulhos provocados por ambos. O ventilador também deve ser evitado e para isso é possível prever uma ventilação natural cruzada e constante que evite os desagradáveis barulhos.

Como proteger o imóvel sem segregar pessoas:

Seria um sonho se as igrejas pudessem estar abertas 24 horas a receber toda e qualquer pessoa. Mas vivemos num mundo que não possibilita este sonho. As igrejas são alvos de vandalismo, de uso indevido de seu espaço, entre tantas outras situações indesejáveis que comprometem não só a segurança do imóvel quanto de seus usuários.

O desafio aqui é proteger o lugar sem transformá-lo numa prisão cheia de grades. A igreja deve convidar o fiel a entrar e nunca ser um lugar que afasta as pessoas. Há muitas maneiras de proteger o lugar sem segregar, pode-se fazer uso de elementos disfarçados no jardim, o vidro também é uma forma de fechar de forma discreta. Há muitas maneiras, para cada caso deve ser pensada uma solução que leve em conta segurança e acolhimento.

 

Regina Céli Machado.
arquiteta
arca@terra.com.br , reuna.arquitetos@terra.com.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. Segurança da igreja edifício e da Igreja – Assembléia reunida, O que a Liturgia tem a ver com Ecologia?. São Paulo, 217, p. 26 a 28, Jan/Fev 2010.

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A escolha do local da igreja – primeira parte

Regina Celi Machado

Continuando a proposta para 2010 de abordar assuntos mais técnicos ligados ao edifício igreja, neste artigo falaremos sobre o local para a construção ou expansão do edifício igreja.

O ideal seria poder escolher o local perfeito para o que se quer construir, com espaço para tudo que queremos e precisamos, com topografia favorável e documentação correta. Mas, na maioria das vezes, ou a comunidade ganha um terreno, ou ocupa um terreno que sobrou de algum loteamento, ou o dinheiro da comunidade não dá para comprar o lugar sonhado. O que fazer então? Saber usar o que se tem é meio caminho para diminuir os problemas, se cercar de cuidados e planejar é outra parte do caminho.

Escolha do terreno

Se a comunidade vai comprar um terreno é importante pedir ajuda de um profissional, um corretor de confiança para orientar quanto ao real valor do imóvel e a documentação, um arquiteto ou engenheiro que possa avaliar a topografia e a natureza geológica da área. Dependendo do que vai ser construído, um terreno pode ser inviável em razão de um forte declive ou a presença de lençóis d’água ou jazidas. Os vizinhos também são bons consultores, eles conhecem a região, o comportamento do solo e como o local se comporta durante as chuvas.

Nas grandes cidades já não há áreas muito grandes sobrando, o mais certo é encontrar terreno de testadas (largura da frente do ter- reno) muito estreitas e, dependendo do local, os códigos de edificação e as leis de uso e ocupação do solo limitam muito a área possível de ser edificada. Nestes casos, para evitar a construção de um espaço com nave muito estreita e comprida, que dificulta a participação da assembléia na ação litúrgica, o arquiteto e a comunidade têm que encontrar soluções nem sempre fáceis.

O projeto da igreja São Pedro em Santana de Parnaíba- SP aproveitou o forte declive e frente para duas ruas. A construção foi feita em etapas e sem cortes e arrimos. A rua de cima dá acesso à igreja e a rua de baixo acesso à secretaria e salas de catequese. No pavimento intermediário está localizado o salão de festas e reuniões.

Um terreno de esquina ou com frente para duas ruas pode parecer interessante, mas é bom saber que o recuo obrigatório de frente para ruas é sempre muito grande e pode inviabilizar um projeto. Verificar se naquela zona da cidade pode-se construir igrejas é outra preocupação que deve ser considerada.

Antes de adquirir um imóvel não custa dar um pulo na prefeitura e perguntar o que pode ser construído no local, quais os recuos exigidos, qual a legislação de uso e ocupação do solo.

Topografia e orientação

É importante também observar a insolação do terreno. Estudar o caminho do sol, de que lado ele nasce e morre. Pode-se tirar partido da luz natural para iluminar o local e valorizar algumas áreas. Mas devem-se evitar aberturas para o sol que possam prejudicar a visão dos fiéis ou aquecer demasiadamente o local.

A forma do terreno já ajuda a pensar na forma da futura construção. Deve-se harmonizar a construção com o terreno, observar a topografia e a situação do entorno. Evitar grandes cortes e aterros para não encarecer a obra. E conservar o máximo a vegetação nas áreas não edificadas evitando a lavagem da terra e conseqüentes erosões.

Escolher um terreno plano se possível pode representar muita economia com obras de terra, fundações e estruturas de concreto, além de reduzir a zero os custos com contenções de arrimo. A avaliação da resistência do solo também é muito importante, isso pode ser feito por uma empresa de sondagem ou verificando as obras edificadas na vizinhança. Caso o resultado apresente um solo de boa resistência superficial, e sendo a obra  a construir de apenas um pavimento, será possível utilizar uma fundação tipo baldrame corrido, que consome menos ferragem e utiliza um concreto mais barato. Nunca se precipite em fazer obras de terra como terraplanagens e cortes antes dos projetos de arquitetura e estrutural estarem prontos e sem a orientação de um engenheiro, pois poderá perder dinheiro com serviços desnecessários. O arquiteto poderá tirar proveito da topografia e dos acidentes naturais do terreno fazendo um projeto adequado e economizando com redução das obras de terra.

Não se pode deixar de verificar se o local é servido de água encanada, se há rede de águas pluviais e de esgoto. Caso contrário deverá ser previsto um poço para abastecer de água o local e fossa para o esgotamento sanitário.

Uso do espaço

Não é raro vermos construções feitas sem planejamento. Primeiro se constrói um salão porque a verba é pequena, e quando mais tarde a comunidade quer ampliar o espaço, fazer salas de catequese, salão e secretaria, encontra dificuldade. O melhor é planejar tudo o que se quer logo de cara, vai fazendo as construções aos poucos, mas já sabendo onde cada espaço ficará e tudo se comunicando, ao contrário de parecer uma colcha de retalhos aproveitando mal o terreno.

Com o terreno definido e sabendo o que a legislação permite construir, a comunidade deve pensar em um programa, listar tudo que quer e precisa construir, e definir as prioridades. Mas o projeto deve ser global para que no final tudo esteja em harmonia e para que o terreno possa ser aproveitado ao máximo.

No estudo do espaço é importante pensar para onde serão abertos os vãos de ventilação e iluminação, e não se esquecer do conforto térmico e acústico. Tudo isso se pensado e planejado no início vai evitar dores de cabeça e desperdícios. Um bom projeto pode evitar gastos de energia desnecessários com iluminação e ventilação artificiais, e prever um bom conforto acústico e térmico.

 

Regina Céli Machado
arquiteta – reuna.arquitetos@terra.com

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. A escolha do local da igreja – primeira parte, Páscoa de Cristo, páscoa do universo. São Paulo, 218, p. 23 a 24, Mar/Abr 2010.

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O círculo na composição do espaço

Regina Celi Machado

Tudo que acontece em nossas vidas tem forma. O nosso jeito de ser Igreja, a nossa teologia e pastoral também têm forma. E, até mesmo, formas geométricas. Aliás, a matemática está em nossas vidas muito mais do que podemos imaginar. Vale assistir, e com as crianças, o filme Matemágica, de 1959.

Na igreja vivemos em comunidades, e é em comunidade que fazemos comunhão, fraternidade, caridade, partilha e solidariedade. A vocação de todo cristão é a vida em comunidade. Se formos desenhar uma comunidade, qual seria esse desenho? Qual forma geométrica usaríamos? Forma e conteúdo andam sempre juntos. Você vê um bule e já sabe o que tem dentro. Uma panela de pressão lembra logo feijão. Não colocamos mingau em bule e nem leite em panela de pressão. Nos espaços ocupados pelos humanos também acontece do mesmo modo. A forma denuncia e anuncia um conteúdo. Sempre!

No 13º Intereclesial das CEBs em Juazeiro do Norte  no início desse ano, quando  as  pessoas  começaram a se organizar em círculos concêntricos para o “ofício da chegada”, subvertendo a forma tradicional – de uns de costas para os outros – juntando mais de 4 mil pessoas ao redor do Círio Pascal e nesta forma continuaram durante todas as celebrações do Intereclesial, ali, naquele círculo, estavam anunciando um conteúdo. A forma circular que esse povo reunido deixava claro no Intereclesial era o que eles vivem em comunidade, sabem o que é comunidade e defendem essa Igreja comunitária.

Por de trás desta forma há uma nova visão de Igreja, povo de Deus, proposta no Concílio Vaticano II, aprofundada pelas conferências do CELAM e concretizada no cotidiano das comunidades que acreditam na Igreja fiel ao evangelho, vivida pelas primeiras comunidades cristãs. Esta nova visão de Igreja supõe uma liturgia que não seja mera formalidade, mas experiência vital em que todos se sintam envolvidos numa relação de iguais. Aqui, as diferenças são colocadas a serviço desta igualdade fundamental.

Esta liturgia, por sua vez, exige um espaço que lhe corresponda. A imagem do círculo se apresenta como a mais adequada, ainda que o espaço disponível seja um quadrado, ou mesmo um retângulo. O círculo cabe dentro do quadrado. O que está em jogo é uma composição de espaço que estabeleça relações de igualdade, sem negar as diferenças de funções. O mesmo se pode dizer dos espaços da catequese de iniciação ou de qualquer outro encontro de formação.

A Instrução Geral do Missal Romano (257) diz que “é pre- ciso que a disposição geral do lugar sagrado esteja estruturada de tal maneira que possa apresentar a configuração da assembleia reunida e permita a participação disciplinada e orgânica de todos, favorecendo o desenvolvimento regular das funções de cada um”. Não se faz comunidade, não se reúne uma assembleia que possa participar efetivamente de uma celebração estando de costas uns para os outros  e com lugares privilegiados.

A mesa da Eucaristia, que é venerada com uma inclinação, um beijo e/ou incensação é única, como único é o Cristo. Esta mesa, que não tem frente, nem costas, nem lugares privilegiados é o centro para o qual converge  a Igreja em partilha e comunhão. Por isso deverá ser colocada “de forma a constituir o centro para o qual converge a atenção de toda a assembléia”. (IGMR, 262).

Regina Céli Machado.
Arquiteta. www.arquitetura- religiosa.arq.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O círculo da composição do espaço, Igreja ícone do Mistério. São Paulo, 243, p. 13, Mai/Jun 2014.

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O passo a passo na construção de uma igreja V

Regina Celi Machado

Este é o quinto artigo de uma série que vem abordando durante todo o ano de 2011 o passo a passo que antecede a construção de uma igreja. Tomamos como exemplo uma igreja que está sendo construída em Americana no interior de São Paulo. Neste artigo falaremos sobre os projetos, os custos, os contratos e o cronograma.

 Introdução

O edifício igreja é o lugar privilegiado do encontro da assembléia de fiéis na qual Deus se faz presente. Por isso, a igreja- edifício, só é Igreja de verdade quando está a serviço de uma comunidade eclesial concreta.

A igreja-edifício deve oferecer condições para que os fiéis possam exercer sua missão e, ao mesmo tempo, possibilitar sua participação ativa. O edifício pode ser construído de tal forma que não iniba, mas facilite a vivência dos valores cristãos.

A igreja é um sinal da Igreja peregrina na terra e, é também imagem visível da Igreja do céu. Ela deve expressar através da sua for- ma, suas cores, luzes e sombras, esta função simbólica e mística.

Para que o edifício seja ao mesmo tempo mistagógico e funcional, é necessário haver planejado. Tudo deve ser previsto em projetos para que possa ser, então, construído conforme o desejo e a necessidade da comunidade envolvida.

Para isso, os profissionais que projetarão a futura igreja ou reformarão uma igreja existente precisam conhecer a comunidade para a qual vão trabalhar, e ainda a liturgia e os documentos da Igreja sobre o assunto.

Preliminares aos projetos

A comunidade da Paróquia Senhor Bom Jesus, de Americana, seguiu à risca as orientações técnicas e contratou profissionais que pudessem planejar todas as etapas.

Antes do concurso para execução dos projetos a comunidade providenciou o levantamento topográfico cadastral e a sondagem do terreno, que possibilitam o desenvolvimento do projeto de arquitetura e são determinantes do tipo de fundação e estrutura que o calculista irá propor.

O programa de necessidades foi outra providência que antecedeu o projeto. Nele, a comunidade junto com o pároco e o profissional de arquitetura contratado, elaboraram o programa de necessidades onde estavam elencados todos os interesses e objetivos do cliente.

Algumas perguntas foram respondidas para que o programa pudesse ser elaborado: Quantas pessoas participarão das celebrações? Quais as atividades que a construção irá abrigar: culto, festas, cursos, reuniões, assembleias, etc.? O batismo será feito por imersão? Qual o mobiliário específico de cada espaço?

Tudo o que a comunidade deseja e sonha tem que ser dito nessa hora ao profissional, que deve entender as necessidades e os desejos apresentados e expressá-los no desenho.

Projetos

Nenhuma construção ou reforma, no espaço da igreja, pode ser feita sem a elaboração de projetos, que devem atender as necessidades da comunidade e estarem em conformidade com as normas da instituição, a legislação municipal e as normas técnicas. Todo o cuidado com o planejamento de uma obra e a contratação de profissionais habilitados e capacitados visa um melhor resultado e maior economia a médio e longo prazo. Gastos iniciais com levantamentos e projetos devem ser contabilizados como investimentos.

Cabe aos profissionais de arquitetura e engenharia, a responsabilidade técnica pelos projetos e obra. Também é de responsabilidade destes profissionais, a interpretação correta das legislações municipais, estaduais e federais pertinentes às edificações, segurança e patrimônio histórico, artístico e cultural.

Projeto de arquitetura

O Projeto de arquitetura é o primeiro a ser feito. É ele que concebe a obra e é também a sua representação final. É impossível construir ou reformar sem um projeto de arquitetura.

O arquiteto é o profissional indicado para elaborar o projeto arquitetônico no qual estão definidos todos os espaços, as ligações entre eles, os acessos, as aberturas de ventilação e de iluminação, as entradas e saídas, as alturas, os materiais a serem usados e a mística do edifício.

Um primeiro estudo foi apresentado à comissão responsável e ao pároco, que opinaram e sugeriram algumas mudanças e adequações. Em seguida, foi elaborado o projeto básico, aprovado na Prefeitura junto com o projeto para o Corpo de Bombeiros.

Após a aprovação do projeto de arquitetura, todos os demais projetos complementares foram contratados. Após a definição de todos os projetos é que o projeto executivo de arquitetura foi concluído e então feita a contratação da empresa construtora.

Projeto de fundações e cálculo estrutural

O projeto estrutural deve atender a todas as indicações do projeto arquitetônico, com ressalva a exequibilidade técnica da estrutura e a harmonia com os demais projetos complementares.

O projeto estrutural é constituído de infra- estrutura (fundações) e supraestrutura (estruturas superiores – lajes, pilares e vigas).

Em Americana, a escolha das fundações considerou a existência de uma vizinhança que deveria ser poupada de futuras avarias em suas casas e excesso de barulho durante a obra.

Projeto de instalações elétricas, hidráulicas, sanitárias, de segurança e de prevenção de incêndio

O projeto de instalações reúne todos aqueles projetos que vão permitir o funcionamento do edifício. É de fundamental importância que o arquiteto ou engenheiro, no desenvolvimento do seu projeto, procure facilitar as instalações com o uso de paredes hidráulicas por exemplo.

Toda a fiação e todas as tubulações devem ser passadas necessariamente durante a obra para que não seja preciso quebrar paredes e furar estruturas futuramente. Daí, a necessidade de que todos os projetos estejam compatibilizados e prontos quando se inicia a obra.

Projeto acústico e de conforto térmico

A comunidade de Americana não só executou os projetos obrigatórios, mas foi além, para poder se precaver de qualquer surpresa posterior. A acústica é sempre um grande problema para as igrejas, o que pode ser evitado se previsto em projeto. Caso contrário, pode se tornar um problema insolúvel. Também o desconforto térmico que obriga as igrejas a distribuírem ventiladores, pode ser previsto e evitado em projeto.

Para conseguir o conforto térmico no ambiente, recomenda-se recorrer sempre aos recursos naturais (sombreamentos com vegetação adequada, circulação natural do ar) que possibilitam grande economia de energia elétrica e conforto adequado a cada região.

Para o conforto acústico não só a forma espacial é importante como, em muitos casos, alguns revestimentos especiais são imprescindíveis. Em Americana algumas paredes serão revestidas de material absorvente para que, mesmo sem o uso de sistema de som, a verberação ocorra em todo o espaço celebrativo.

Projeto de impermeabilização

Outro problema recorrente nas igrejas são as infiltrações, que como tantas outras coisas, se não tratada desde o início da construção e prevista em projeto, pode ser de difícil e onerosa solução no futuro.

Na igreja do Senhor Bom Jesus o projeto de impermeabilização previu o tratamento adequado de toda a área de jardim, áreas molhadas, lajes, fontes e as áreas que deverão ser lavadas.

Projeto paisagístico

A área livre para jardim na igreja de Americana, tem grande importância pastoral. Ali a comunidade fará os encontros sociais, as festas, as manifestações culturais, procissões e via sacra. A catequese também poderá usar este espaço livre de área de lazer.

O Projeto Paisagístico é um projeto complementar ao de arquitetura. Nele estão previstos estacionamentos, passagens, equipamentos de lazer, muros, grades, grutas e toda a vegetação. Aqui, cada planta escolhida também faz parte do projeto iconográfico, como a falsa vinha que marca o ciclo da vida perdendo todas as folhas no inverno, ou fi- cando com as folhas vermelhas no outono e exuberantemente verdes no verão. Oliveiras estarão ladeando o oratório de Nossa Senhora. Nas esquinas do terreno serão plantados dois flamboyants que estavam no terreno há muitos anos atrás e que estão saudosamente na memória dos fiéis.

Ainda neste jardim que ocupa todo o terreno, haverá uma fonte que brota logo abaixo do altar, no pavimento superior. Esta água corre por um canal no jardim e deságua em outra fonte que também serve para o batismo.

Doze pilares, que sustentam a igreja, fazem parte do jardim e neles estarão impressos os nomes dos doze apóstolos.

Projeto de mobiliário

Todo o mobiliário litúrgico foi desenvolvido para a igreja de Americana em conjunto com a arquitetura, formando uma unidade de desenho e materiais. Do altar ao quadro de avisos, das toalhas às vestes, tudo foi previsto e projetado para evitar improvisos posteriores.

O mobiliário foi desenvolvido para ser funcional, de fácil conservação para expressar a nobreza do espaço. Os bancos serão fixos e a base feita de aço para que não sofra corrosão. O mobiliário litúrgico será em pedra e as peças como castiçais, cruzes de consagração, cruz procissional serão em aço inox fosco.

Projeto iconográfico

A decoração e a ornamentação do espaço celebrativo não é um recurso isolado do projeto arquitetônico e da liturgia. Pinturas, vitrais, mosaicos, mobiliário, toalhas, arranjos florais, tudo foi considerado no projeto iconográfico. Projetado para salientar a liturgia e a participação dos fiéis, em unidade com a arquitetura e não para “enfeitar” ou “decorar” o espaço.

Projeto de áudio e vídeo

Aqui também um profissional especialista foi consultado e o projeto elaborado previu um bom sistema de som e áudio que satisfaça a necessidade de comunicação dentro da igreja. Áudio e telão serão instalados no jardim para que as celebrações possam ser acompanhadas quando a capacidade da igreja for excedida. Também áudio e som para missa campal estão previstos em frente à igreja com altar colocado no patamar largo da escadaria.

Projeto de luminotecnia

Este projeto, complementa o de elétrica que distribui quadros e pontos e calcula a carga. Este estuda qual a luz necessária para cada ambiente, como valorizar espaços e peças especiais e como dar dramaticidade a alguns locais ou ocasiões.

Cronograma de projetos e obra

O cronograma é uma representação gráfica de previsão da execução do trabalho. Indica o prazo em que serão executadas as diversas fases do trabalho e qual o custo de cada uma. Um cronograma de projetos foi elaborado e permitiu que a comunidade soubesse quanto teria que desembolsar e em quanto tempo. Nesta igreja específica o cronograma previu oito meses para o desenvolvimento de todos os projetos.

O cronograma de obras, que foi elaborado depois de todos os projetos concluídos, prevê as diversas fases de obra. Por exemplo: Pre- paração do terreno, fundação, estrutura, lajes paredes, cobertura, instalações elétricas, instalações hidráulicas e sanitárias, esquadrias, pisos, acabamentos.

Assim, pode-se saber quanto será gasto, mês a mês, até o fim da obra e quanto tempo levará para cada etapa ser executada.

O cronograma é feito por quem vai executar a obra junto com o cliente que sabe de quanto pode dispor. Neste caso, o cliente contratou separadamente fundação de estrutura, paredes e instalações e, por fim, os acabamentos. Assim, pode levantar verba para cada fase e cumprir os compromissos assumidos com o construtor.

Custos

O cálculo de custos para projetos e obra depende de uma série de fatores e varia de região para região.

Os índices de custos de construção  civil  são divulgados em sites como o do Sinduscom – o sindicato da construção civil – com índices diferentes para cada região do país. Esses custos só se referem à obra civil, ali não estão computados os custos de mobiliário, equipamentos, obras de arte ou acabamentos sofisticados.

Pela experiência podemos dizer que o metro quadrado de uma construção está por volta de R$ 1.000,00.

Para os projetos também é possível conseguir tabelas junto ao CREA – o Conselho Regional de Arquitetura e Engenharia – e as previsões de custo variam entre 6% a 12% do valor da obra.

Assim, podemos fazer uma previsão de custo para uma igreja que tenha 800 m2 de área a ser construída, da ordem de R$ 800.000,00 e, custo de projetos entre R$ 48.000,00 a R$ 96.000,00.

Conclusão

Tudo que falamos aqui pode ser resumido na palavra planejamento. Planejar é o caminho mais curto para conseguirmos atingir objetivos com o mínimo de problemas e com o máximo de economia tanto financeira quanto de tempo e desgaste emocional.

No caso de uma construção ou reforma de igreja, que envolve toda uma comunidade e recursos, mais atenção ainda deve se ter no planejar e prever tudo, calculado e divulgado. Quantas vezes vimos  casos de obras mal feitas que são, em seguida, demolidas. Ou obras  que  custaram  caro e não funcionam. A única forma de evitar surpresas desagradáveis é fazendo um bom planejamento.

E ainda assim acontecerão imprevistos porque estamos lidando com uma série de condicionantes vivas. Em Americana, foram feitos 12 contratos de projetos: arquitetura, estrutura, hidráulica e elétrica, aprovação prefeitura e bombeiros, impermeabilização, paisagismo, acústica, iluminação, áudio e vídeo, iconografia, mobiliário, gerenciamento de projetos. Foram vários profissionais trabalhando juntos e ao mesmo tempo, onde o projeto de um tinha interfaces com o projeto do outro. Se um profissional não cumprisse seu próprio prazo, atrapalhava o prazo do outro. Sendo assim o cronograma previsto de 8 meses de projeto acabou se estendendo para 12 meses.

Também com a obra outros imprevistos certamente virão. No caso de Americana, que neste momento está na fase de levantamento da estrutura, a falta de mão de obra qualificada no mercado aquecido da construção civil certamente vai atrasar a previsão de entrega da obra.

Os imprevistos sempre existirão, o que é mais um motivo para se cercar de planejamento, profissionais qualificados, participação da comunidade e mecanismos de prestação de contas, tudo para que haja o mínimo de contratempos.

Regina Céli Machado.
Arquiteta. www.arquitetura- religiosa.arq.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja V, Piedade popular e liturgia. São Paulo, 227, p. 18 a 21, Set/Out 2011.

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O passo a passo na construção de uma igreja IV

Regina Celi Machado

 

Este é o quarto artigo de uma série que aborda o passo a passo que antecede  a  construção de uma igreja. Tomamos como exemplo uma igreja que está sendo construída em Americana, no interior de São Paulo. Neste artigo falaremos sobre o Programa Iconográfico desta igreja.

A igreja de Americana possui três níveis distintos. Uma área térrea livre para o encontro social da comunidade, para jardins e lazer. Um nível intermediário onde ficam os espaços de apoio, secretaria, sala do dízimo, sala do padre, sala da reconciliação, sacristia. Aí também fica a capela do padroeiro. No nível mais alto estão o salão de culto e também as capelas do santíssimo e do batismo.

A preocupação em separar os vários espaços, seja o do social, o do serviço, os espaços devocionais e os celebrativos, foi fundamental para atender a necessidade de funcionalidade e de valorização da liturgia.

O volume da igreja sugere, como pedido pelo cliente, que é preciso subir para chegar ao lugar santo, em referência às leituras da Transfiguração. Tanto a escadaria quanto a cobertura do corredor central levam o olhar do fiel para o alto e sugerem essa subida.

Na lateral direita, na extensão da fachada, um grande painel serve de apoio para arte mural, um grafite que fará a comunicação da igreja com a cidade.

LUGARES DA AÇÃO LITÚRGICA


O átrio –
O átrio dá ideia de passagem, de limiar entre o conhecido e o desconhecido, entre a luz e as trevas. É o lugar que prepara para o mistério e convida para entrar. É simbolicamente o umbral entre o caos e a ordem. Aí se desenvolve o ministério da acolhida.

O átrio possui iluminação discreta na base das paredes, uma pia de água benta com foco de iluminação sobre ela. Aí não é   o lugar de leitura nem dos avisos, é lugar de fazer silêncio, as abluções e simbolicamente tirar as sandálias.

Uma porta muito alta e estreita, sugerindo a entrada difícil para acessar o Reino, separa o átrio do espaço de celebração.

O lugar da assembléia – Desde tempos antiqüíssimos os participantes das celebrações eram chamados de circunstantes, isto é, aqueles que estão ao redor. Assim, a forma originária e, portanto, exemplar, vê os celebrantes como uma comunidade reunida para o encontro recíproco, onde cada um está voltado para o outro e todos têm no altar o centro espiritual da sua assembléia, e a comunidade é concebida numa proximidade espacial com este centro.

Nesta igreja a assembléia se desenvolve ao redor do altar com duas naves mais compridas e duas áreas laterais ao altar onde estão as equipes de canto e os diversos ministérios.

O lugar da presidência – A sede e as cadeiras para os acólitos formam um conjunto loca- lizado atrás do altar com degraus a mais para que possam manter boa comunicação com a assembléia. A sede faz conjunto com o altar e o ambão, expressões simbólicas do Cristo celebrante e serão todos do mesmo material e estilo, pois revela uma mesma realidade. O lugar da presidência fecha o círculo formado pelos fiéis ao redor do altar eucarístico.

O lugar da Palavra – O ambão ocupa a lateral do presbitério. O móvel começa no piso da assembléia e tem possibilidade de ser acessado por crianças e cadeirantes. Um apoio para o círio pascal ocupa a frente do ambão.

O ambão é peça alta que anuncia e testemunha o Cristo. Não há dois ambões, pois uma só é a Palavra de Deus. Não é lugar para comentários e recados, estes terão lugar numa ou mais estantes móveis em metal.

O lugar da eucaristia – O catecismo da Igreja Católica explica: ”o altar em torno do qual a igreja está reunida na celebração da Eucaristia representa os dois aspectos de um mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor, e isto tanto mais porque o altar cristão é o símbolo do próprio Cristo, presente no meio da assembléia  dos  fiéis, ao mesmo tempo como vítima oferecida por nossa reconciliação e como alimento celeste que se dá a nós”.

”Com efeito, que é o altar de Cristo senão a imagem do corpo de Cristo?” – diz Santo Ambrósio. Assim, o altar como corpo de Cristo, se expressa de forma mais plena quando a assembléia está ao redor dele.

O altar é um cubo perfeito medindo 95 cm x 95 cm x 95 cm em granito branco como o ambão e a cadeira da presidência e está ladeado por dois candelabros de metal. Ele permanece desnudo só recebendo a toalha no momento da celebração eucarística. Nem arranjos florais e nem as velas estarão sobre o altar.

O lugar do batismo – A capela do batismo se encontra na entrada do salão de culto. Está um degrau mais alto do que a assembléia para facilitar a participação de todos no momento da entrada do batizando na água. A fonte batismal possibilita o batismo de adulto por imersão e o batismo de crianças numa só peça. Será uma piscina com uma fonte em forma de cruz inserida no octógono formado pelo desenho do piso.

No teto da capela do batismo a iluminação natural chega por uma abertura exatamente sobre a fonte batismal, lembrando o abre-te – efetá. Um armário para os santos óleos ocupa a parede de fundos da capela do batismo.

O círio pascal indica a presença do Ressuscitado e estará na frente do ambão durante o tempo pascal. O resto do ano permanece no batistério e poderá ser usado em grandes ocasiões como ordenação, primeira comunhão, confirmação e exéquias.

O lugar da reconciliação – O lugar da reconciliação está junto com a sala do padre, possui uma mesa, duas cadeiras, uma cruz na parede. Uma Bíblia e uma vela estarão sobre a mesa. A iluminação é discreta. A separação do espaço da reconciliação com a sala do padre é feita por divisória de madeira vazada. A sala de reconciliação está contígua à capela do padroeiro.

O LUGAR DA RESERVA EUCARÍSTICA E LUGARES DEVOCIONAIS


Capela do santíssimo – A capela do santíssimo é um espaço à parte, tranquilo, acolhedor, onde se encontra apenas o tabernáculo, genuflexório e bancos. Aí não há cruz nem imagens do Cristo.
O sacrário em granito branco é um cubo perfeito de 50 cm pendurado por uma coluna de metal que sai de dentro de uma abertura no teto para iluminação e ventilação.

Tanto a capela do santíssimo como a do batismo estão ligadas ao altar eucarístico por um caminho que marca a relação entre estes espaços.

Capela  do padroeiro – Esta capela está na entrada junto ao lugar da re- conciliação, fora do espaço da celebração. O padroeiro tem como apoio o antigo altar da capela do santíssimo, única peça que sobrou da antiga igreja que foi demolida no mesmo local. Diante dele oito bancos individuais e um velário compõem essa capela devocional.

Capela de Nossa Senhora – No térreo, diante da rua de maior movimento, está localizada a capela de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina. O oratório na fachada posterior da igreja está acessível aos fiéis para uma oração rápida e está em contato direto com o dia a dia da cidade. Junto à tradicional imagem impressa em tecido cercada por jardim estará um velário em metal.

Iconografia – A iconografia deve fazer unidade com a arquitetura. As imagens, vitrais e mosaicos não são uma coisa à parte, mas dependentes da arquitetura e do programa iconográfico. Para enfatizar a dimensão cristocêntrica dos espaços celebrativos não foi colocada no presbitério nenhuma outra imagem que a do próprio Cristo.

O mosaico central do Cristo – A Transfiguração no Monte Tabor ocupa o centro do painel em mosaico que captará toda a luz que entra pelas aberturas jogando cor sobre o branco do piso, das paredes, do forro e do mobiliário. É da Transfiguração que sai toda a luz que ilumina a igreja numa explosão de cores. Toda a cena da Transfiguração será representada neste painel que ocupará o centro do presbitério e as paredes laterais onde estarão as figuras de Elias e Moisés.

A imagem da Mãe de Deus A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe em tecido ocupa a capela já citada.

A imagem do Padroeiro – A imagem do padroeiro será a mesma que vem acompanhando a comunidade, uma estátua de gesso policromada de grande porte, que manterá assim a ligação com o passado da comunidade.

Via sacra – A via sacra, como o nome bem o diz é caminho, por isso está localizada na rampa de acesso à igreja, possibilitando que os fiéis possam fazer o caminho de forma funcional. Sendo um ato de devoção, melhor que não esteja dentro do espaço de celebração comunitária. As placas da Via Sacra são móveis e podem ser usadas em outros espaços do jardim ou mesmo fora da igreja.

Vitrais – Um imenso vitral sobre as naves terá fechamento com vitral possibilitando a saída do ar quente. O vitral geométrico, em cores azuis escuras, vermelhos, amarelos e âmbar, trás para dentro do espaço o cosmos e seus símbolos, o sol e a lua, as estrelas e os planetas, o dia e a noite.

OBJETOS RELACIONADOS COM O ESPAÇO DA AÇÃO LITÚRGICA


Cruzes de consagração – São 12 cruzes em metal e estão acompanhadas de apoio para vela. Essas cruzes serão localizadas nos 12 pilares dentro do salão de culto. As velas são acesas na celebração de dedicação da igreja e nas comemorações de aniversário da dedicação.

Cruz processional – A peça tem base em metal com a arte do Cristo em silk-screen impressa. A cruz deve entrar  em  procissão  e  ser localizada na lateral do altar onde existe apoio no piso.

Castiçais – Duas peças em metal se localizam nas laterais do altar e estão encaixadas no piso.

Toalhas e panos – Apenas o altar deve ter toalha e seu uso é durante a celebração eucarística. A toalha em linho branco/barbante deverá ter o tamanho justo do altar. Os demais panos devem ser confeccionados no mesmo linho. Não é necessário nenhum bordado nas toalhas e panos.

Vasos sagrados – Todos os vasos são em metal na cor prata foscos, com desenho funcional e sem enfeites.

Vestes – Todas as vestes da presidência, dos acólitos e ministros em linho branco/barbante sem pinturas ou bordados com imagens.

Sinos – Os sinos em número de quatro estarão na torre sineira e serão automatizados.

Velário – Um apoio para velas está previsto no espaço do oratório de Nossa Senhora e outro na capela do padroeiro. Será em aço corten enferrujado. Os velários terão espaço para colocar as velas apoiadas sobre areia.

Flores – Toda decoração é perigosa, pois o excesso pode esconder o essencial. Basta um pequeno vaso aos pés da cruz processional e, mesmo assim, dependendo do tempo litúrgico. O cuidado na preparação das flores também deverá refletir o Mistério que se celebra. Outros adornos deverão ser evitados.

Credencias – Para os apoios no presbitério, na entrada da igreja e na capela do santíssimo estão previstas credencias na mesma madeira dos bancos.

JARDIM


As Diretrizes para a Elaboração do Projeto, escritas pela comunidade pediam um jardim onde os fiéis pudessem se reunir antes e depois das celebrações para conviver e alimentar a vida comunitária. É um lugar para café da manhã, festas,  quermesses, lugar  para  a catequese, para o passeio matinal, para o lazer de crianças e idosos. O jardim térreo é uma continuação da praça que fica do outro lado da rua.

Esta área é simbólica do ponto de vista ecológico, a terra está liberta, a água pode penetrar a terra. Há plantas, árvores, trepadeiras, muitas flores. Nos fundos ladeando o oratório de Nossa Senhora há duas oliveiras. Nas duas esquinas dois flamboyants. Na frente dois ipês. Cobrindo o muro lateral a falsa vinha que acompanha as estações do ano, ficando com as folhas vermelhas no outono, as folhas verdes e cheias na primavera e no inverno apenas o esqueleto de galhos.

A pedra fundamental está localizada no térreo exatamente embaixo do altar. Do lugar da pedra brota uma água que atravessa o pátio e deságua na fonte, um espelho d’água com leve ponte em forma de peixe atravessa as águas. Neste local é possível fazer também o batismo por imersão.

No jardim do térreo há palco para apresentações e celebrações. Neste ambiente foi previsto um telão e som para que as mães possam acompanhar as celebrações que acontecem no salão de culto quando precisam sair para acompanhar seus filhos.

É a partir do jardim que se inicia a devoção da via sacra subindo a rampa.

Nos 12 pilares da área de jardim um trabalho em silk na cor vermelha direto sobre o concreto faz alusão aos 12 apóstolos e os 12 signos do zodíaco em harmonia com o ambiente ligado às forças da natureza.

Ainda na área externa, no primeiro patamar da escadaria frontal, um espaço de 2,13m de largura foi previsto para a colocação de altar, cadeira e ambão para missa campal.

A igreja se fecha com um grande portão em ferro forjado onde estão escritas com o próprio ferro frases bíblicas que façam sentido para a comunidade, que expressem a espiritualidade e a mística do lugar.

O Programa Iconográfico de uma igreja deve ser mistagógico, isto é, deve conduzir o fiel para dentro do mistério celebrado naquele espaço. Todas as paredes, pinturas, pisos, imagens, todos os objetos, forma, cores e texturas são extensão do que ali se celebra. O Programa Iconográfico é a visualização do invisível.

 

Regina Céli Machado.
Arquiteta. www.arquitetura-religiosa.arq.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja IV, Um caminho sem volta. São Paulo, 226, p. 27 a 30, Jul/Ago 2011.

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O passo a passo na construção de uma igreja III

Regina Celi Machado

Uma das frases mais recorrentes em conversas entre padres é que  “as tarefas  do nosso ministério se acumulam e acabamos por nos tornar clínicos gerais  que têm o papel de cuidar de tudo sem  muita especialização ou preparo para tanto”. No dia a dia de uma paróquia, é isso o que acontece. O padre é chamado a atuar em várias frentes, inclusive na tarefa de “edificar” o templo, ou o centro pastoral ou mesmo a  casa paroquial.

Fiquei pensando em tudo isso enquanto escrevia este artigo sobre o processo de ela- boração e implementação do novo templo da Paróquia do Senhor Bom Jesus na cidade de Americana (SP), da qual, há 3 anos, sou o pároco. Sem a pretensão de ser modelo para outros párocos e paróquias que estejam no mesmo processo, tento descrever essa em- preitada com o olhar do “clínico geral” que, sem nenhum preparo específico, se dispõe a colaborar com a comunidade.

O que diz o chão onde se pisa


Nos dois últimos números desta revista de- mos início a uma série de quatro artigos em que abordamos o passo a passo para a construção de uma igreja. Tomamos como exemplo uma obra em processo de construção na cidade de Americana no interior de São Paulo. Avaliamos que este exemplo concreto e completo seria útil, aos  párocos,  às  equipes  de  construção e aos  profissionais  da  área  da  arquitetura e engenharia. Neste artigo o pároco dá sua visão pastoral e teológica sobre o processo. No próximo artigo iremos expor o Programa Iconográfico desta igreja.

Uma questão que se apresenta a priori na edificação de uma obra comunitária é saber o que diz a realidade na qual será desenvolvido o trabalho. Isso pode parecer algo muito vago, mas é uma postura neces- sária porque serve de baliza para as ações que se seguirão.

O pároco terá que potencializar em si e na sua visão teológico-pastoral o que a comuni- dade, e não raras vezes também a sociedade na qual a igreja está inserida, deseja e es- pera da construção. Quanto mais o projeto representar os anseios de quem vai utilizar   o espaço, maiores as chances de se ter a comunidade como parceira e protagonista do processo, socializando e dividindo o peso de manter o ânimo de todos durante o tempo que durar o processo da construção.

Quem deve zelar por esse processo


Quando se trata de responsabilidade administrativa, sem dúvida nenhuma, somos nós os párocos que recebemos a provisão para cuidar das obras da comunidade. No entanto, está mais do que provado que o sistema centralizador não funciona e quando funciona, não agrega e não partilha com a comunidade a responsabilidade no cuidado dos seus bens.

Para tanto, o pároco deve ter a com- preensão de sua efetiva participação, até porque, na maioria das vezes, foi ele quem estudou (ainda que não seja especialista) os critérios teológicos e pastorais que, em tese, libertariam a edificação do binômio custo- benefício.

Mas não deve fazer sozinho… Deve contar com uma  ou  mais equipes que  o  ajudem  a pensar o processo, deve consultar espe- cialistas, agregar profissionais, motivar a comunidade para a arrecadação de fundos, etc.

Em nosso caso, tivemos a colaboração de duas equipes distintas: uma formada pelo Conselho de Assuntos Econômicos (CAE) que teve o papel de mobilizar a comunidade, preparar as regras do concurso e enviar aos profissionais, motivar a comunidade e propor os eventos; a outra equipe, formada por pro- fissionais de diferentes áreas acompanha a elaboração e realização dos projetos.

O gestar ideias


Os critérios teológico-pastorais além de libertarem as construções comunitárias do tão falado custo-benefício, acrescentam novo aspecto que é o de dar sentido à obra em questão. Não se trata de simplesmente levantar paredes, colocar telhado  e  definir a posição dos móveis. Cabe-nos interpretar quanto e como vai falar aquela obra, com as pessoas que a frequentarão e os momentos litúrgicos que ali serão vivenciados. Isso não será resultado de uma pessoa apenas, mas da cooperação de muitas que se colocarão a serviço, contribuindo de alguma forma.

Com isso, tudo fica mais moroso, pois se trata, em muitos casos, de educar as pessoas; Mas os ganhos são indiscutíveis. Quem vir o prédio verá o que a comunidade acredita e vivencia em sua experiência. E isso também é evangelização.

O específico dentro do geral


No processo de edificação existe uma mobilização interna da comunidade que, junto com as equipes de coordenação e administração do projeto ‘fazem a coisa acontecer’. Mas só isso não basta. É fundamental a busca de profissionais competentes: não só arquiteto e engenheiro, mas profissionais para a execução da obra. Trabalhando articuladamente poderão vislumbrar problemas e apontar saídas para garantir eficiente resultado em todos os aspectos de uma construção: sonorização, iluminação, conforto térmico, sistema acústico, jardins, sustentabilidade.

Por fim, a comunhão de sonhos


Um dos pilares de uma obra comunitária é garantir que o sonho não seja só de uma pessoa ou de um pequeno grupo, mas seja conquista coletiva, pois a comunidade deve se sentir não apenas representada, mas espelhada nela. Caso contrário haverá o risco de se tornar apenas um local aonde as pessoas frequentam, mas sem criar vínculos, como a agência bancária onde se usufrui de alguns serviços.

As edificações comunitárias devem des- pertar nas pessoas que ali frequentam e celebram sua fé, o vínculo de afeto, atenção, cuidado, zelo, respeito e responsabilidade. À longo prazo esta será a base da identidade histórica que a comunidade constrói, preserva e delega para as futuras gerações, motivada pelo Ressuscitado que fica conosco até o fim dos tempos…

Padre Antonio Luis Fernandes
Pároco do Senhor Bom Jesus, em Americana, SP.

Regina Céli Machado, arquiteta
www.arquitetura-religiosa.arq.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja III, Formação litúrgica para jovens. São Paulo, 225, p. 26 a 27, Mai/Jun 2011.

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O passo a passo na construção de uma igreja II

Regina Celi Machado

A Terra é hoje o maior de todos os pobres a ser libertado, diz o teólogo Leonardo Boff. A terra está cativa, explorada e doente. Com ela caminham juntos todos os seres vivos e entre eles os humanos.

O primeiro passo no projeto da igreja do Senhor Bom Jesus de Americana foi libertar a terra elevando a construção 4.50m do solo e permitindo libertar também a paisagem e ventilar os arredores.

O acesso à igreja se dá por uma larga escada frontal e uma rampa na lateral com 8,3% de inclinação para o acesso aos portadores de necessidades especiais. Todos os acessos são cobertos.

A escadaria de entrada está coberta por uma laje que se estende por toda a extensão da igreja, passa pelo campanário e termina na cruz que marca este centro de fé.

Térreo – praça

No pavimento térreo estão localizados os banheiros, inclusive para portadores de deficiência física, e um apoio de cozinha para festas. Este es- paço será utilizado como uma grande praça aberta diariamente para uso de toda a comunidade. Sob a igreja o jardim levará à meditação, com caminhos, rampas, bancos, fonte, veio e espelho d’água. Há ainda um palco para apresentações e espaço livre para festas, quermesses, encontros.

O estacionamento ocupa o recuo obrigatório da construção e comporta 35 vagas para automóveis sem comprometer o espaço coberto do térreo.

Um oratório com a imagem da Virgem de Guadalupe ocupa espaço de ligação direta com a rua de maior movimento, é Maria quem primeiro introduz o fiel ao lugar de oração e celebração. O local escolhido possibilita aos fiéis um espaço digno para sua devoção, um contato mais rápido e direto com a imagem da Mãe de Deus, e com liberdade para colocação de flores e para acender velas.

Na rampa está localizada a Via Sacra como um verdadeiro caminho a ser percorrido e rezado ter- minando com o Cristo glorioso dentro da igreja.


Pavimento intermediário
– serviço e devoção

Antes da chegada ao local de culto há um piso intermediário onde estão localizadas a secretaria, a sala do dízimo, a sala do padre, a sala da reconciliação e a sala de paramentação, que possibilita com mais conforto a entrada processional e a acolhida por parte do presidente da celebração e dos ministros.

É neste espaço que estão também os quadros de avisos e cartazes para que não poluam e atrapalhem as celebrações litúrgicas e para que os fiéis possam ter tempo e espaço digno para estar diante deles.

Também na área intermediária, junto à sala de reconciliação, está a capela do padroeiro, espaço devocional fora do espaço de celebração.

Um átrio em rampa dá acesso ao lugar de celebração a partir do pavimento intermediário. O hall é o umbral entre as duas realidades, a do mundo e suas necessidades práticas, e a do salão de culto e a entrega ao Mistério de Deus. Este espaço possui apenas uma pia de água benta e iluminação muito discreta no piso.

Primeiro pavimento – o lugar da celebração

Um painel com uma grande porta impede a visão do espaço interno que deve ser vislumbrado lentamente e cuja visão do conjunto deve causar surpresa ao fiel. Este é o lugar onde as sandálias devem ser tiradas, o lugar santo. A porta central se abre para a procissão de entrada e para a entrada das noivas. A entrada comum se dá pelas laterais do painel.

Logo na entrada estão as duas capelas, do Santíssimo de um lado, e do Batismo de outro. Ambas se comunicam com o espaço de celebração apesar de estarem fora da nave.

A cobertura que protege a escada desde o térreo é a mesma que continua cobrindo todo o grande corredor central em direção ao altar, em direção àquele que é o centro de nossa vida e de nossa fé: Jesus Cristo.

Corredor e cobertura levam o fiel ao altar e ao Cristo transfigurado, representado num grande painel de 12 metros de altura, em mosaico, com roupas brancas na presença de Moisés e Elias.

A cobertura da nave onde estão os bancos dos fiéis é mais baixa que a cobertura central. A cobertura lateral é feita com telhas termo acústicas sobre estrutura metálica. A luz entra pelos vitrais geométricos no triângulo formado pelas coberturas laterais e central. A nave tem espaço para 600 pessoas sentadas e outras 300 de pé.As paredes laterais possuem aberturas na base das paredes para a entrada do ar que fará sua saída cruzada pelas aberturas nos vitrais.

O altar ocupa o centro para onde todas as atenções se voltam. Altar, ambão e cadeira da presidência, polos litúrgicos, formam uma unidade de forma e material e serão em granito branco. O piso também de granito branco possui uma estreita faixa em pastilha vermelha que começa na base da escadaria e favorece a ideia de caminho para o centro. As paredes e o teto também são brancos deixando-se dominar pela cor que chega intensa pelos vitrais.

Para que os fiéis possam ter participação ativa, como orienta o Concílio Vaticano II, a assembleia foi projetada ao redor da palavra e da eucaristia   e não apenas de costas uns para os outros. E a cadeira da presidência salienta a posição daquele que lidera e serve ao mesmo tempo.

Uma área de apoio para a celebração eucarística está localizada atrás do painel com pia e armários para os vasos sagrados. Nas laterais estão localiza- das a sala de som e uma saída de emergência.

O volume externo está marcado pelas linhas horizontais e pelo volume suspenso com pilares recuados. A grande torre com a cruz marca o lugar santo para toda a cidade. Uma torre menor sustenta os sinos. Os volumes horizontais são brancos. As torres, vigas e pilares são em concreto aparente. As grandes aberturas possuem vitrais coloridos.

Conclusão

O projeto atendeu as orientações dos documentos da Igreja pós Concílio Vaticano II sobre arquitetura sacra buscando o dinamismo do culto: o espaço deve servir à execução do Mistério Pascal e à ativa participação dos fiéis; o espaço deve ser funcional; a assembleia deve ser orgânica e hierárquica e constituir uma unidade íntima e coerente.

Como marca bem a Constituição Conciliar, a liturgia é o método mais eficaz para ensinar o que é o cristianismo. E o espaço, o lugar privilegiado para este ensinamento.

No próximo artigo será o pároco que contará sobre a experiência de planejar e construir uma igreja, e nos próximos números abordaremos o projeto iconográfico e a responsabilidade social e ecológica presentes nessa obra.

Regina Céli Machado, arquiteta

arca@terra.com.br;
reuna.arquitetos@terra.com.br.

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja II, Preparando a páscoa. São Paulo, 224, p. 24 a 25, Mar/Abr 2011.

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O passo a passo na construção de uma igreja

Regina Celi Machado

Durante todo o ano de 2011 iremos abordar em seis artigos o passo a passo para a construção de uma igreja. Tomaremos como exemplo uma igreja que será construída em Americana, interior de São Paulo. Avaliamos que este exemplo concreto e completo poderia ser bastante útil aos párocos, equipes de construção e profissionais da área da arquitetura e engenharia. Trata-se de uma igreja paroquial numa cidade de porte médio num bairro de classe média.

Preliminares

A igreja da Paróquia do Senhor Bom Jesus de Americana será construída em terreno onde uma antiga igreja foi demolida, num processo difícil em que opiniões a favor e contra dividiram a comunidade. O terreno, praticamente plano, com aproximadamente 1.700 m2 (54 m x 31 m) possui frente para 3 ruas com uma praça bem arborizada na face sul. Em 23 de novembro de 2008 foi enviada

a alguns arquitetos uma carta-convite junto com as diretrizes, para participarem do concurso do projeto de arquitetura e projetos complementares para a nova igreja. No início de abril de 2009 foi assinado o contrato com o projeto vencedor. Nas diretrizes para a elaboração do projeto o cliente apresentava alguns critérios para o julgamento dos projetos: – Harmonia das formas e dos símbolos que uma igreja exige; – Praticidade para as funções litúrgicas e para a locomoção das pessoas; – Segurança; – Preocupação ecológica: iluminação e ventilação naturais e presença de vegetação; – Disposição dos espaços e das salas internas; – Levar em conta o valor referencial de R$ 1.800.000,00 (um milhão e oitocentos mil reais) para a integralidade da obra. Com o título de Motivação Espiritual foram traçadas, pelo padre e a comissão formada para acompanhar o concurso, as orientações para o desenvolvimento do projeto de arquitetura da igreja: – Segundo antiquíssima tradição da Igreja, cada templo católico recebe um padroeiro que tem a função de orientar a espiritualidade dos fieis daquele lugar a partir da experiência que o santo ou santa tiveram na sua vida pessoal, mas sempre em relação ao Cristo e ao seu projeto de Vida para todos. Em alguns casos esse título é dado ao patrocínio do próprio Senhor Jesus, que é o caso da nossa paróquia. Assim, para elaborar o projeto do novo templo, devemos levar em conta essa perspectiva espiritual que deverá se refletir na arquitetura e nos espaços sagrados da nova Igreja. – A base teológica dos textos bíblicos, que são motivadores da espiritualidade do Tabor, está na ideia de que saímos da experiência do cotidiano, que fica na planície, e subimos com Cristo para a experiência do sagrado. No monte somos levados a conhecer Cristo e sua proposta de modo a reconhecer Nele todo o poder e glória de Deus. A ideia de subir é fundamental para o projeto do novo templo, por isso, é nosso desejo que o projeto contemple as seguintes sugestões, que podem ser aperfeiçoadas ou trocadas por outras, mas não deixadas de lado. O templo deverá ter três espaços distintos que atuam como aquecimento para o encontro com Deus: 1. O lugar do nosso cotidiano, o espaço para a chegada de quem vem da rotina, espaço que se comunica com a rua, estacionamento, um espaço para reunião antes e depois da liturgia, encontros, descanso, oração e principalmente jardins; 2. O lugar da preparação para o encontro com o sagrado. Já dentro do corpo do templo, num patamar mais alto, é o lugar do atendimento e do acolhimento. Secretaria, sala do padre conjugada com a sacristia, recepção do dízimo, átrio. 3. O corpo da Igreja num patamar mais alto ainda, com a nave, o presbitério, a capela do batismo e a capela do Santíssimo. Uma ideia que tivemos foi de usar o telhado para dar a noção de subida ao monte. As duas capelas (batismo e santíssimo) devem estar logo na entrada do edifício dentro da nave principal. Os vitrais não serão com imagens humanas de santos ou cenas bíblicas, mas sim com formas arrojadas e modernas que inspirem a experiência do divino que não se traduz em entendimento racional.

Atrás do altar, deverão existir duas salas: som e sacristia. Na medida do possível, seria interessante um jardim interno que desse a ideia de estarmos entrando no jardim do Éden ou no alto de um monte. Um processo de reforma e construção pode ser uma benção ou um desastre, dependendo se se apoia sobre conhecimentos teológicos e litúrgicos, pastorais e técnicos ou simplesmente sobre palpites. E se é comunitário, democrático e participativo. A Paróquia do Senhor Bom Jesus de Americana seguiu de forma organizada todos essas orientações. Montaram uma comissão composta pelo pároco, dois membros do Conselho de Assuntos Econômicos da Paróquia, dois membros do Conselho Pastoral Paroquial e um representante da Diocese de Limeira. Organizaram um concurso de projetos e puderam escolher os profissionais certos para o que queriam construir. Contrataram profissionais especializados para cada uma das etapas do projeto e da obra. E sempre partilharam com transparência à comunidade todas as informações referentes às contas e aos projetos. A proposta vencedora acrescentou mais um item fundamental para todos que queiram reformar e construir, que é da acessibilidade, possibilitando com rampas, que todos os fiéis tenham acesso a todos os espaços da igreja inclusive às mesas da eucaristia e da palavra. No próximo artigo iremos expor de que forma traduzimos em desenhos as idéias levantadas no edital do concurso, como todo o programa foi cumprido, a legislação local respeitada e, sobretudo, como a liturgia, renovada pelo Concílio Vaticano II guiou este projeto.

“… tenha-se presente que a finalidade da arquitetura sacra é oferecer à Igreja, que celebra os mistérios da fé, especialmente a Eucaristia, o espaço mais idôneo para uma condigna realização da sua ação litúrgica; a natureza do templo cristão define-se precisamente pela ação litúrgica, a qual implica a reunião dos fiéis (ecclesia), que são as pedras vivas do templo.” (Bento XVI)

Regina Céli Machado, arquiteta  www.arquitetura-religiosa.arq.br.

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja, O sentido teológico da Liturgia. São Paulo, 223, p. 27 a 29, Jan/Fev 2011.

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