O passo a passo na construção de uma igreja IV

Regina Celi Machado

 

Este é o quarto artigo de uma série que aborda o passo a passo que antecede  a  construção de uma igreja. Tomamos como exemplo uma igreja que está sendo construída em Americana, no interior de São Paulo. Neste artigo falaremos sobre o Programa Iconográfico desta igreja.

A igreja de Americana possui três níveis distintos. Uma área térrea livre para o encontro social da comunidade, para jardins e lazer. Um nível intermediário onde ficam os espaços de apoio, secretaria, sala do dízimo, sala do padre, sala da reconciliação, sacristia. Aí também fica a capela do padroeiro. No nível mais alto estão o salão de culto e também as capelas do santíssimo e do batismo.

A preocupação em separar os vários espaços, seja o do social, o do serviço, os espaços devocionais e os celebrativos, foi fundamental para atender a necessidade de funcionalidade e de valorização da liturgia.

O volume da igreja sugere, como pedido pelo cliente, que é preciso subir para chegar ao lugar santo, em referência às leituras da Transfiguração. Tanto a escadaria quanto a cobertura do corredor central levam o olhar do fiel para o alto e sugerem essa subida.

Na lateral direita, na extensão da fachada, um grande painel serve de apoio para arte mural, um grafite que fará a comunicação da igreja com a cidade.

LUGARES DA AÇÃO LITÚRGICA


O átrio –
O átrio dá ideia de passagem, de limiar entre o conhecido e o desconhecido, entre a luz e as trevas. É o lugar que prepara para o mistério e convida para entrar. É simbolicamente o umbral entre o caos e a ordem. Aí se desenvolve o ministério da acolhida.

O átrio possui iluminação discreta na base das paredes, uma pia de água benta com foco de iluminação sobre ela. Aí não é   o lugar de leitura nem dos avisos, é lugar de fazer silêncio, as abluções e simbolicamente tirar as sandálias.

Uma porta muito alta e estreita, sugerindo a entrada difícil para acessar o Reino, separa o átrio do espaço de celebração.

O lugar da assembléia – Desde tempos antiqüíssimos os participantes das celebrações eram chamados de circunstantes, isto é, aqueles que estão ao redor. Assim, a forma originária e, portanto, exemplar, vê os celebrantes como uma comunidade reunida para o encontro recíproco, onde cada um está voltado para o outro e todos têm no altar o centro espiritual da sua assembléia, e a comunidade é concebida numa proximidade espacial com este centro.

Nesta igreja a assembléia se desenvolve ao redor do altar com duas naves mais compridas e duas áreas laterais ao altar onde estão as equipes de canto e os diversos ministérios.

O lugar da presidência – A sede e as cadeiras para os acólitos formam um conjunto loca- lizado atrás do altar com degraus a mais para que possam manter boa comunicação com a assembléia. A sede faz conjunto com o altar e o ambão, expressões simbólicas do Cristo celebrante e serão todos do mesmo material e estilo, pois revela uma mesma realidade. O lugar da presidência fecha o círculo formado pelos fiéis ao redor do altar eucarístico.

O lugar da Palavra – O ambão ocupa a lateral do presbitério. O móvel começa no piso da assembléia e tem possibilidade de ser acessado por crianças e cadeirantes. Um apoio para o círio pascal ocupa a frente do ambão.

O ambão é peça alta que anuncia e testemunha o Cristo. Não há dois ambões, pois uma só é a Palavra de Deus. Não é lugar para comentários e recados, estes terão lugar numa ou mais estantes móveis em metal.

O lugar da eucaristia – O catecismo da Igreja Católica explica: ”o altar em torno do qual a igreja está reunida na celebração da Eucaristia representa os dois aspectos de um mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor, e isto tanto mais porque o altar cristão é o símbolo do próprio Cristo, presente no meio da assembléia  dos  fiéis, ao mesmo tempo como vítima oferecida por nossa reconciliação e como alimento celeste que se dá a nós”.

”Com efeito, que é o altar de Cristo senão a imagem do corpo de Cristo?” – diz Santo Ambrósio. Assim, o altar como corpo de Cristo, se expressa de forma mais plena quando a assembléia está ao redor dele.

O altar é um cubo perfeito medindo 95 cm x 95 cm x 95 cm em granito branco como o ambão e a cadeira da presidência e está ladeado por dois candelabros de metal. Ele permanece desnudo só recebendo a toalha no momento da celebração eucarística. Nem arranjos florais e nem as velas estarão sobre o altar.

O lugar do batismo – A capela do batismo se encontra na entrada do salão de culto. Está um degrau mais alto do que a assembléia para facilitar a participação de todos no momento da entrada do batizando na água. A fonte batismal possibilita o batismo de adulto por imersão e o batismo de crianças numa só peça. Será uma piscina com uma fonte em forma de cruz inserida no octógono formado pelo desenho do piso.

No teto da capela do batismo a iluminação natural chega por uma abertura exatamente sobre a fonte batismal, lembrando o abre-te – efetá. Um armário para os santos óleos ocupa a parede de fundos da capela do batismo.

O círio pascal indica a presença do Ressuscitado e estará na frente do ambão durante o tempo pascal. O resto do ano permanece no batistério e poderá ser usado em grandes ocasiões como ordenação, primeira comunhão, confirmação e exéquias.

O lugar da reconciliação – O lugar da reconciliação está junto com a sala do padre, possui uma mesa, duas cadeiras, uma cruz na parede. Uma Bíblia e uma vela estarão sobre a mesa. A iluminação é discreta. A separação do espaço da reconciliação com a sala do padre é feita por divisória de madeira vazada. A sala de reconciliação está contígua à capela do padroeiro.

O LUGAR DA RESERVA EUCARÍSTICA E LUGARES DEVOCIONAIS


Capela do santíssimo – A capela do santíssimo é um espaço à parte, tranquilo, acolhedor, onde se encontra apenas o tabernáculo, genuflexório e bancos. Aí não há cruz nem imagens do Cristo.
O sacrário em granito branco é um cubo perfeito de 50 cm pendurado por uma coluna de metal que sai de dentro de uma abertura no teto para iluminação e ventilação.

Tanto a capela do santíssimo como a do batismo estão ligadas ao altar eucarístico por um caminho que marca a relação entre estes espaços.

Capela  do padroeiro – Esta capela está na entrada junto ao lugar da re- conciliação, fora do espaço da celebração. O padroeiro tem como apoio o antigo altar da capela do santíssimo, única peça que sobrou da antiga igreja que foi demolida no mesmo local. Diante dele oito bancos individuais e um velário compõem essa capela devocional.

Capela de Nossa Senhora – No térreo, diante da rua de maior movimento, está localizada a capela de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina. O oratório na fachada posterior da igreja está acessível aos fiéis para uma oração rápida e está em contato direto com o dia a dia da cidade. Junto à tradicional imagem impressa em tecido cercada por jardim estará um velário em metal.

Iconografia – A iconografia deve fazer unidade com a arquitetura. As imagens, vitrais e mosaicos não são uma coisa à parte, mas dependentes da arquitetura e do programa iconográfico. Para enfatizar a dimensão cristocêntrica dos espaços celebrativos não foi colocada no presbitério nenhuma outra imagem que a do próprio Cristo.

O mosaico central do Cristo – A Transfiguração no Monte Tabor ocupa o centro do painel em mosaico que captará toda a luz que entra pelas aberturas jogando cor sobre o branco do piso, das paredes, do forro e do mobiliário. É da Transfiguração que sai toda a luz que ilumina a igreja numa explosão de cores. Toda a cena da Transfiguração será representada neste painel que ocupará o centro do presbitério e as paredes laterais onde estarão as figuras de Elias e Moisés.

A imagem da Mãe de Deus A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe em tecido ocupa a capela já citada.

A imagem do Padroeiro – A imagem do padroeiro será a mesma que vem acompanhando a comunidade, uma estátua de gesso policromada de grande porte, que manterá assim a ligação com o passado da comunidade.

Via sacra – A via sacra, como o nome bem o diz é caminho, por isso está localizada na rampa de acesso à igreja, possibilitando que os fiéis possam fazer o caminho de forma funcional. Sendo um ato de devoção, melhor que não esteja dentro do espaço de celebração comunitária. As placas da Via Sacra são móveis e podem ser usadas em outros espaços do jardim ou mesmo fora da igreja.

Vitrais – Um imenso vitral sobre as naves terá fechamento com vitral possibilitando a saída do ar quente. O vitral geométrico, em cores azuis escuras, vermelhos, amarelos e âmbar, trás para dentro do espaço o cosmos e seus símbolos, o sol e a lua, as estrelas e os planetas, o dia e a noite.

OBJETOS RELACIONADOS COM O ESPAÇO DA AÇÃO LITÚRGICA


Cruzes de consagração – São 12 cruzes em metal e estão acompanhadas de apoio para vela. Essas cruzes serão localizadas nos 12 pilares dentro do salão de culto. As velas são acesas na celebração de dedicação da igreja e nas comemorações de aniversário da dedicação.

Cruz processional – A peça tem base em metal com a arte do Cristo em silk-screen impressa. A cruz deve entrar  em  procissão  e  ser localizada na lateral do altar onde existe apoio no piso.

Castiçais – Duas peças em metal se localizam nas laterais do altar e estão encaixadas no piso.

Toalhas e panos – Apenas o altar deve ter toalha e seu uso é durante a celebração eucarística. A toalha em linho branco/barbante deverá ter o tamanho justo do altar. Os demais panos devem ser confeccionados no mesmo linho. Não é necessário nenhum bordado nas toalhas e panos.

Vasos sagrados – Todos os vasos são em metal na cor prata foscos, com desenho funcional e sem enfeites.

Vestes – Todas as vestes da presidência, dos acólitos e ministros em linho branco/barbante sem pinturas ou bordados com imagens.

Sinos – Os sinos em número de quatro estarão na torre sineira e serão automatizados.

Velário – Um apoio para velas está previsto no espaço do oratório de Nossa Senhora e outro na capela do padroeiro. Será em aço corten enferrujado. Os velários terão espaço para colocar as velas apoiadas sobre areia.

Flores – Toda decoração é perigosa, pois o excesso pode esconder o essencial. Basta um pequeno vaso aos pés da cruz processional e, mesmo assim, dependendo do tempo litúrgico. O cuidado na preparação das flores também deverá refletir o Mistério que se celebra. Outros adornos deverão ser evitados.

Credencias – Para os apoios no presbitério, na entrada da igreja e na capela do santíssimo estão previstas credencias na mesma madeira dos bancos.

JARDIM


As Diretrizes para a Elaboração do Projeto, escritas pela comunidade pediam um jardim onde os fiéis pudessem se reunir antes e depois das celebrações para conviver e alimentar a vida comunitária. É um lugar para café da manhã, festas,  quermesses, lugar  para  a catequese, para o passeio matinal, para o lazer de crianças e idosos. O jardim térreo é uma continuação da praça que fica do outro lado da rua.

Esta área é simbólica do ponto de vista ecológico, a terra está liberta, a água pode penetrar a terra. Há plantas, árvores, trepadeiras, muitas flores. Nos fundos ladeando o oratório de Nossa Senhora há duas oliveiras. Nas duas esquinas dois flamboyants. Na frente dois ipês. Cobrindo o muro lateral a falsa vinha que acompanha as estações do ano, ficando com as folhas vermelhas no outono, as folhas verdes e cheias na primavera e no inverno apenas o esqueleto de galhos.

A pedra fundamental está localizada no térreo exatamente embaixo do altar. Do lugar da pedra brota uma água que atravessa o pátio e deságua na fonte, um espelho d’água com leve ponte em forma de peixe atravessa as águas. Neste local é possível fazer também o batismo por imersão.

No jardim do térreo há palco para apresentações e celebrações. Neste ambiente foi previsto um telão e som para que as mães possam acompanhar as celebrações que acontecem no salão de culto quando precisam sair para acompanhar seus filhos.

É a partir do jardim que se inicia a devoção da via sacra subindo a rampa.

Nos 12 pilares da área de jardim um trabalho em silk na cor vermelha direto sobre o concreto faz alusão aos 12 apóstolos e os 12 signos do zodíaco em harmonia com o ambiente ligado às forças da natureza.

Ainda na área externa, no primeiro patamar da escadaria frontal, um espaço de 2,13m de largura foi previsto para a colocação de altar, cadeira e ambão para missa campal.

A igreja se fecha com um grande portão em ferro forjado onde estão escritas com o próprio ferro frases bíblicas que façam sentido para a comunidade, que expressem a espiritualidade e a mística do lugar.

O Programa Iconográfico de uma igreja deve ser mistagógico, isto é, deve conduzir o fiel para dentro do mistério celebrado naquele espaço. Todas as paredes, pinturas, pisos, imagens, todos os objetos, forma, cores e texturas são extensão do que ali se celebra. O Programa Iconográfico é a visualização do invisível.

 

Regina Céli Machado.
Arquiteta. www.arquitetura-religiosa.arq.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja IV, Um caminho sem volta. São Paulo, 226, p. 27 a 30, Jul/Ago 2011.

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O passo a passo na construção de uma igreja III

Regina Celi Machado

Uma das frases mais recorrentes em conversas entre padres é que  “as tarefas  do nosso ministério se acumulam e acabamos por nos tornar clínicos gerais  que têm o papel de cuidar de tudo sem  muita especialização ou preparo para tanto”. No dia a dia de uma paróquia, é isso o que acontece. O padre é chamado a atuar em várias frentes, inclusive na tarefa de “edificar” o templo, ou o centro pastoral ou mesmo a  casa paroquial.

Fiquei pensando em tudo isso enquanto escrevia este artigo sobre o processo de ela- boração e implementação do novo templo da Paróquia do Senhor Bom Jesus na cidade de Americana (SP), da qual, há 3 anos, sou o pároco. Sem a pretensão de ser modelo para outros párocos e paróquias que estejam no mesmo processo, tento descrever essa em- preitada com o olhar do “clínico geral” que, sem nenhum preparo específico, se dispõe a colaborar com a comunidade.

O que diz o chão onde se pisa


Nos dois últimos números desta revista de- mos início a uma série de quatro artigos em que abordamos o passo a passo para a construção de uma igreja. Tomamos como exemplo uma obra em processo de construção na cidade de Americana no interior de São Paulo. Avaliamos que este exemplo concreto e completo seria útil, aos  párocos,  às  equipes  de  construção e aos  profissionais  da  área  da  arquitetura e engenharia. Neste artigo o pároco dá sua visão pastoral e teológica sobre o processo. No próximo artigo iremos expor o Programa Iconográfico desta igreja.

Uma questão que se apresenta a priori na edificação de uma obra comunitária é saber o que diz a realidade na qual será desenvolvido o trabalho. Isso pode parecer algo muito vago, mas é uma postura neces- sária porque serve de baliza para as ações que se seguirão.

O pároco terá que potencializar em si e na sua visão teológico-pastoral o que a comuni- dade, e não raras vezes também a sociedade na qual a igreja está inserida, deseja e es- pera da construção. Quanto mais o projeto representar os anseios de quem vai utilizar   o espaço, maiores as chances de se ter a comunidade como parceira e protagonista do processo, socializando e dividindo o peso de manter o ânimo de todos durante o tempo que durar o processo da construção.

Quem deve zelar por esse processo


Quando se trata de responsabilidade administrativa, sem dúvida nenhuma, somos nós os párocos que recebemos a provisão para cuidar das obras da comunidade. No entanto, está mais do que provado que o sistema centralizador não funciona e quando funciona, não agrega e não partilha com a comunidade a responsabilidade no cuidado dos seus bens.

Para tanto, o pároco deve ter a com- preensão de sua efetiva participação, até porque, na maioria das vezes, foi ele quem estudou (ainda que não seja especialista) os critérios teológicos e pastorais que, em tese, libertariam a edificação do binômio custo- benefício.

Mas não deve fazer sozinho… Deve contar com uma  ou  mais equipes que  o  ajudem  a pensar o processo, deve consultar espe- cialistas, agregar profissionais, motivar a comunidade para a arrecadação de fundos, etc.

Em nosso caso, tivemos a colaboração de duas equipes distintas: uma formada pelo Conselho de Assuntos Econômicos (CAE) que teve o papel de mobilizar a comunidade, preparar as regras do concurso e enviar aos profissionais, motivar a comunidade e propor os eventos; a outra equipe, formada por pro- fissionais de diferentes áreas acompanha a elaboração e realização dos projetos.

O gestar ideias


Os critérios teológico-pastorais além de libertarem as construções comunitárias do tão falado custo-benefício, acrescentam novo aspecto que é o de dar sentido à obra em questão. Não se trata de simplesmente levantar paredes, colocar telhado  e  definir a posição dos móveis. Cabe-nos interpretar quanto e como vai falar aquela obra, com as pessoas que a frequentarão e os momentos litúrgicos que ali serão vivenciados. Isso não será resultado de uma pessoa apenas, mas da cooperação de muitas que se colocarão a serviço, contribuindo de alguma forma.

Com isso, tudo fica mais moroso, pois se trata, em muitos casos, de educar as pessoas; Mas os ganhos são indiscutíveis. Quem vir o prédio verá o que a comunidade acredita e vivencia em sua experiência. E isso também é evangelização.

O específico dentro do geral


No processo de edificação existe uma mobilização interna da comunidade que, junto com as equipes de coordenação e administração do projeto ‘fazem a coisa acontecer’. Mas só isso não basta. É fundamental a busca de profissionais competentes: não só arquiteto e engenheiro, mas profissionais para a execução da obra. Trabalhando articuladamente poderão vislumbrar problemas e apontar saídas para garantir eficiente resultado em todos os aspectos de uma construção: sonorização, iluminação, conforto térmico, sistema acústico, jardins, sustentabilidade.

Por fim, a comunhão de sonhos


Um dos pilares de uma obra comunitária é garantir que o sonho não seja só de uma pessoa ou de um pequeno grupo, mas seja conquista coletiva, pois a comunidade deve se sentir não apenas representada, mas espelhada nela. Caso contrário haverá o risco de se tornar apenas um local aonde as pessoas frequentam, mas sem criar vínculos, como a agência bancária onde se usufrui de alguns serviços.

As edificações comunitárias devem des- pertar nas pessoas que ali frequentam e celebram sua fé, o vínculo de afeto, atenção, cuidado, zelo, respeito e responsabilidade. À longo prazo esta será a base da identidade histórica que a comunidade constrói, preserva e delega para as futuras gerações, motivada pelo Ressuscitado que fica conosco até o fim dos tempos…

Padre Antonio Luis Fernandes
Pároco do Senhor Bom Jesus, em Americana, SP.

Regina Céli Machado, arquiteta
www.arquitetura-religiosa.arq.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja III, Formação litúrgica para jovens. São Paulo, 225, p. 26 a 27, Mai/Jun 2011.

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O passo a passo na construção de uma igreja II

Regina Celi Machado

A Terra é hoje o maior de todos os pobres a ser libertado, diz o teólogo Leonardo Boff. A terra está cativa, explorada e doente. Com ela caminham juntos todos os seres vivos e entre eles os humanos.

O primeiro passo no projeto da igreja do Senhor Bom Jesus de Americana foi libertar a terra elevando a construção 4.50m do solo e permitindo libertar também a paisagem e ventilar os arredores.

O acesso à igreja se dá por uma larga escada frontal e uma rampa na lateral com 8,3% de inclinação para o acesso aos portadores de necessidades especiais. Todos os acessos são cobertos.

A escadaria de entrada está coberta por uma laje que se estende por toda a extensão da igreja, passa pelo campanário e termina na cruz que marca este centro de fé.

Térreo – praça

No pavimento térreo estão localizados os banheiros, inclusive para portadores de deficiência física, e um apoio de cozinha para festas. Este es- paço será utilizado como uma grande praça aberta diariamente para uso de toda a comunidade. Sob a igreja o jardim levará à meditação, com caminhos, rampas, bancos, fonte, veio e espelho d’água. Há ainda um palco para apresentações e espaço livre para festas, quermesses, encontros.

O estacionamento ocupa o recuo obrigatório da construção e comporta 35 vagas para automóveis sem comprometer o espaço coberto do térreo.

Um oratório com a imagem da Virgem de Guadalupe ocupa espaço de ligação direta com a rua de maior movimento, é Maria quem primeiro introduz o fiel ao lugar de oração e celebração. O local escolhido possibilita aos fiéis um espaço digno para sua devoção, um contato mais rápido e direto com a imagem da Mãe de Deus, e com liberdade para colocação de flores e para acender velas.

Na rampa está localizada a Via Sacra como um verdadeiro caminho a ser percorrido e rezado ter- minando com o Cristo glorioso dentro da igreja.


Pavimento intermediário
– serviço e devoção

Antes da chegada ao local de culto há um piso intermediário onde estão localizadas a secretaria, a sala do dízimo, a sala do padre, a sala da reconciliação e a sala de paramentação, que possibilita com mais conforto a entrada processional e a acolhida por parte do presidente da celebração e dos ministros.

É neste espaço que estão também os quadros de avisos e cartazes para que não poluam e atrapalhem as celebrações litúrgicas e para que os fiéis possam ter tempo e espaço digno para estar diante deles.

Também na área intermediária, junto à sala de reconciliação, está a capela do padroeiro, espaço devocional fora do espaço de celebração.

Um átrio em rampa dá acesso ao lugar de celebração a partir do pavimento intermediário. O hall é o umbral entre as duas realidades, a do mundo e suas necessidades práticas, e a do salão de culto e a entrega ao Mistério de Deus. Este espaço possui apenas uma pia de água benta e iluminação muito discreta no piso.

Primeiro pavimento – o lugar da celebração

Um painel com uma grande porta impede a visão do espaço interno que deve ser vislumbrado lentamente e cuja visão do conjunto deve causar surpresa ao fiel. Este é o lugar onde as sandálias devem ser tiradas, o lugar santo. A porta central se abre para a procissão de entrada e para a entrada das noivas. A entrada comum se dá pelas laterais do painel.

Logo na entrada estão as duas capelas, do Santíssimo de um lado, e do Batismo de outro. Ambas se comunicam com o espaço de celebração apesar de estarem fora da nave.

A cobertura que protege a escada desde o térreo é a mesma que continua cobrindo todo o grande corredor central em direção ao altar, em direção àquele que é o centro de nossa vida e de nossa fé: Jesus Cristo.

Corredor e cobertura levam o fiel ao altar e ao Cristo transfigurado, representado num grande painel de 12 metros de altura, em mosaico, com roupas brancas na presença de Moisés e Elias.

A cobertura da nave onde estão os bancos dos fiéis é mais baixa que a cobertura central. A cobertura lateral é feita com telhas termo acústicas sobre estrutura metálica. A luz entra pelos vitrais geométricos no triângulo formado pelas coberturas laterais e central. A nave tem espaço para 600 pessoas sentadas e outras 300 de pé.As paredes laterais possuem aberturas na base das paredes para a entrada do ar que fará sua saída cruzada pelas aberturas nos vitrais.

O altar ocupa o centro para onde todas as atenções se voltam. Altar, ambão e cadeira da presidência, polos litúrgicos, formam uma unidade de forma e material e serão em granito branco. O piso também de granito branco possui uma estreita faixa em pastilha vermelha que começa na base da escadaria e favorece a ideia de caminho para o centro. As paredes e o teto também são brancos deixando-se dominar pela cor que chega intensa pelos vitrais.

Para que os fiéis possam ter participação ativa, como orienta o Concílio Vaticano II, a assembleia foi projetada ao redor da palavra e da eucaristia   e não apenas de costas uns para os outros. E a cadeira da presidência salienta a posição daquele que lidera e serve ao mesmo tempo.

Uma área de apoio para a celebração eucarística está localizada atrás do painel com pia e armários para os vasos sagrados. Nas laterais estão localiza- das a sala de som e uma saída de emergência.

O volume externo está marcado pelas linhas horizontais e pelo volume suspenso com pilares recuados. A grande torre com a cruz marca o lugar santo para toda a cidade. Uma torre menor sustenta os sinos. Os volumes horizontais são brancos. As torres, vigas e pilares são em concreto aparente. As grandes aberturas possuem vitrais coloridos.

Conclusão

O projeto atendeu as orientações dos documentos da Igreja pós Concílio Vaticano II sobre arquitetura sacra buscando o dinamismo do culto: o espaço deve servir à execução do Mistério Pascal e à ativa participação dos fiéis; o espaço deve ser funcional; a assembleia deve ser orgânica e hierárquica e constituir uma unidade íntima e coerente.

Como marca bem a Constituição Conciliar, a liturgia é o método mais eficaz para ensinar o que é o cristianismo. E o espaço, o lugar privilegiado para este ensinamento.

No próximo artigo será o pároco que contará sobre a experiência de planejar e construir uma igreja, e nos próximos números abordaremos o projeto iconográfico e a responsabilidade social e ecológica presentes nessa obra.

Regina Céli Machado, arquiteta

arca@terra.com.br;
reuna.arquitetos@terra.com.br.

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja II, Preparando a páscoa. São Paulo, 224, p. 24 a 25, Mar/Abr 2011.

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O passo a passo na construção de uma igreja

Regina Celi Machado

Durante todo o ano de 2011 iremos abordar em seis artigos o passo a passo para a construção de uma igreja. Tomaremos como exemplo uma igreja que será construída em Americana, interior de São Paulo. Avaliamos que este exemplo concreto e completo poderia ser bastante útil aos párocos, equipes de construção e profissionais da área da arquitetura e engenharia. Trata-se de uma igreja paroquial numa cidade de porte médio num bairro de classe média.

Preliminares

A igreja da Paróquia do Senhor Bom Jesus de Americana será construída em terreno onde uma antiga igreja foi demolida, num processo difícil em que opiniões a favor e contra dividiram a comunidade. O terreno, praticamente plano, com aproximadamente 1.700 m2 (54 m x 31 m) possui frente para 3 ruas com uma praça bem arborizada na face sul. Em 23 de novembro de 2008 foi enviada

a alguns arquitetos uma carta-convite junto com as diretrizes, para participarem do concurso do projeto de arquitetura e projetos complementares para a nova igreja. No início de abril de 2009 foi assinado o contrato com o projeto vencedor. Nas diretrizes para a elaboração do projeto o cliente apresentava alguns critérios para o julgamento dos projetos: – Harmonia das formas e dos símbolos que uma igreja exige; – Praticidade para as funções litúrgicas e para a locomoção das pessoas; – Segurança; – Preocupação ecológica: iluminação e ventilação naturais e presença de vegetação; – Disposição dos espaços e das salas internas; – Levar em conta o valor referencial de R$ 1.800.000,00 (um milhão e oitocentos mil reais) para a integralidade da obra. Com o título de Motivação Espiritual foram traçadas, pelo padre e a comissão formada para acompanhar o concurso, as orientações para o desenvolvimento do projeto de arquitetura da igreja: – Segundo antiquíssima tradição da Igreja, cada templo católico recebe um padroeiro que tem a função de orientar a espiritualidade dos fieis daquele lugar a partir da experiência que o santo ou santa tiveram na sua vida pessoal, mas sempre em relação ao Cristo e ao seu projeto de Vida para todos. Em alguns casos esse título é dado ao patrocínio do próprio Senhor Jesus, que é o caso da nossa paróquia. Assim, para elaborar o projeto do novo templo, devemos levar em conta essa perspectiva espiritual que deverá se refletir na arquitetura e nos espaços sagrados da nova Igreja. – A base teológica dos textos bíblicos, que são motivadores da espiritualidade do Tabor, está na ideia de que saímos da experiência do cotidiano, que fica na planície, e subimos com Cristo para a experiência do sagrado. No monte somos levados a conhecer Cristo e sua proposta de modo a reconhecer Nele todo o poder e glória de Deus. A ideia de subir é fundamental para o projeto do novo templo, por isso, é nosso desejo que o projeto contemple as seguintes sugestões, que podem ser aperfeiçoadas ou trocadas por outras, mas não deixadas de lado. O templo deverá ter três espaços distintos que atuam como aquecimento para o encontro com Deus: 1. O lugar do nosso cotidiano, o espaço para a chegada de quem vem da rotina, espaço que se comunica com a rua, estacionamento, um espaço para reunião antes e depois da liturgia, encontros, descanso, oração e principalmente jardins; 2. O lugar da preparação para o encontro com o sagrado. Já dentro do corpo do templo, num patamar mais alto, é o lugar do atendimento e do acolhimento. Secretaria, sala do padre conjugada com a sacristia, recepção do dízimo, átrio. 3. O corpo da Igreja num patamar mais alto ainda, com a nave, o presbitério, a capela do batismo e a capela do Santíssimo. Uma ideia que tivemos foi de usar o telhado para dar a noção de subida ao monte. As duas capelas (batismo e santíssimo) devem estar logo na entrada do edifício dentro da nave principal. Os vitrais não serão com imagens humanas de santos ou cenas bíblicas, mas sim com formas arrojadas e modernas que inspirem a experiência do divino que não se traduz em entendimento racional.

Atrás do altar, deverão existir duas salas: som e sacristia. Na medida do possível, seria interessante um jardim interno que desse a ideia de estarmos entrando no jardim do Éden ou no alto de um monte. Um processo de reforma e construção pode ser uma benção ou um desastre, dependendo se se apoia sobre conhecimentos teológicos e litúrgicos, pastorais e técnicos ou simplesmente sobre palpites. E se é comunitário, democrático e participativo. A Paróquia do Senhor Bom Jesus de Americana seguiu de forma organizada todos essas orientações. Montaram uma comissão composta pelo pároco, dois membros do Conselho de Assuntos Econômicos da Paróquia, dois membros do Conselho Pastoral Paroquial e um representante da Diocese de Limeira. Organizaram um concurso de projetos e puderam escolher os profissionais certos para o que queriam construir. Contrataram profissionais especializados para cada uma das etapas do projeto e da obra. E sempre partilharam com transparência à comunidade todas as informações referentes às contas e aos projetos. A proposta vencedora acrescentou mais um item fundamental para todos que queiram reformar e construir, que é da acessibilidade, possibilitando com rampas, que todos os fiéis tenham acesso a todos os espaços da igreja inclusive às mesas da eucaristia e da palavra. No próximo artigo iremos expor de que forma traduzimos em desenhos as idéias levantadas no edital do concurso, como todo o programa foi cumprido, a legislação local respeitada e, sobretudo, como a liturgia, renovada pelo Concílio Vaticano II guiou este projeto.

“… tenha-se presente que a finalidade da arquitetura sacra é oferecer à Igreja, que celebra os mistérios da fé, especialmente a Eucaristia, o espaço mais idôneo para uma condigna realização da sua ação litúrgica; a natureza do templo cristão define-se precisamente pela ação litúrgica, a qual implica a reunião dos fiéis (ecclesia), que são as pedras vivas do templo.” (Bento XVI)

Regina Céli Machado, arquiteta  www.arquitetura-religiosa.arq.br.

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O passo a passo na construção de uma igreja, O sentido teológico da Liturgia. São Paulo, 223, p. 27 a 29, Jan/Fev 2011.

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Revista 223 | O sentido Teológico da Liturgia