Revista de Liturgia e artigos sobre Arquitetura Sacra

A Revista de Liturgia, começou a ser publicada no Brasil em 1973, pela Congregação Pias Discípulas do Divino Mestre, com o apoio e incentivo de Dom Evaristo Arns, então cardeal da Igreja católica em São Paulo, da Comissão Arquidiocesana de Liturgia, da CNBB nacional e, mais tarde, do Centro de Liturgia, então pertencente à Faculdade Nossa Senhora da Assunção em São Paulo.

Inicialmente foi lançada com o nome da edição italiana – A Vida em Cristo e na Igreja – tendo como subtítulo Revista Bimestral de Liturgia. Na década de 90, assumiu o nome – Revista de Liturgia – com o qual se tornou realmente conhecida no Brasil. É uma revista de liturgia editada a cada dois meses.

Dentre os temas versados pela Revista de Liturgia, Arquitetura Sacra é um tema muito presente nos artigos. Foi feito um levantamento dos principais temas e escritores sobre este tema na Revista e trazemos um resumo para todos os interessados e desejosos de bibliografia sobre Arquitetura Sacra.

EDIÇÃOBIM-ANOTEMA CAPAARTIGOPÁGINAATUROR(A)
175JAN/FEV-2003InculturaçãoPara começar o assuntoPg.8Regina Machado
176MARC/ABR-2003SacramentalidadeO Espaço no tempo LitúrgicoPg.10Regina Machado
177MAI/JUN-2003Liturgia cume e fonte da vidaA pedagogia do espaçoPg.12Regina Machado
      
181JAN/FEV-2004Façam isto…O lugar da celebraçãoPg.11Regina Machado
182MARC/ABR-2004Reconciliai-vos…A cada da IgrejaPg.21Regina Machado
183MAI/JUN-2004Renascer da água e do EspíritoA fonte batismal da catedral de Duque de CaxiasPg.10Regina Machado
184JUL/AGO-2004Unção dos enfermosA Igreja e a capela da Comunidade de TaizéPg.8Regina Machado
185SET/OUT-2004MatrimônioInculturação na arquitetura…Pg.25Regina Machado
186Nov/Dez-2004O sacramento da ordemQual é o centro do espaço da celebraçãoPg.26Regina Machado
      
189MAI/JUN-2005A Eucaristia diante das deformações do mundoO AmbãoPg.21Ir.Laíde Sonda
190JUL/AGO-2005A música na missa do tempo quaresmalA cadeira da presidênciaPg.21Ir.Laíde Sonda
191SET/OUT-2005A Liturgia das CEB´s no 11º IntereclesialA capela do SantíssimoPg.21Maria A.P.Guimarães/Rosana R. Moreira
      
193JAN/FEV-2006Levanta-te, vem para o meioO espaço de celebração no Brasil-ENTREVISTAPg.24Rafaela Asprino
194MARC/ABR-2006Catequese como iniciação à eucarístiaA comissão de Arte SacraPg.24Pe. Carlos Gustavo Haas
195MAI/JUN-2006Congresso EucarísticoArquitetura, arte e bens culturaisPg.24Rafaela Asprino
197SET/OUT-2006A Novena de NatalTécnicas e materiais regionais:uma caminho p. e.Pg.24Rafaela Asprino
198Nov/Dez-2006Romaria dos mártiresProfissionalismo e simplicidade…Pg.14Rafaela Asprino
   
200MARC/ABR-2007Páscoa: a luz que vence as trevasTrabalho em equipe…Pg.22João Martins
201MAI/JUN-2007À espera de um novo PentecostesO uso do espaço condiciona o rito?Pg.21Pe.Enrique Illarze
202JUL/AGO-2007Reacender a EsperançaArquitetura e ecologiaPg.20Regina Machado
203SET/OUT-2007A liturgia na assembléia de Aparecida 6º Encontro Nacional de Arte SacraPg.20Regina Machado
204Nov/Dez-2007Canto e música na V Conferência do CelamÀ luz da Encíclica Sacramentum CaritatisPg.26Rafaela Asprino
   
205JAN/FEV-2008Mistagogia do espaço litúrgicoComunidade de Santa Odília Santana de P.-SPPg.8Rafaela Asprino
207MAI/JUN-2008Uma pastoral a serviço da liturgiaEspaço litúrgicoPg.7Rafaela Asprino
   O centro do espaço litúrgicoPg.9Regina Machado
208JUL/AGO-2008O Ministério da LiturgiaUma igreja para a maior favela da cidade de SP.Pg.22Regina Machado
209SET/OUT-2008Ecologia e LiturgiaArte sacra, um ministério a serviço da liturgiaPg.24Raquel Tonini Rosenberg Schneider
210Nov/Dez-2008Vem, senhor JesusMudanças de pároco e continuidade de projetosPg.25Regina Machado
   
211JAN/FEV-2009Compreeder e viver a Palavra de DeusUm altar para multidãoPg.22João Martins
212MAR/ABR-2009Liturgia e vida cristãPiso, o caminho da igrejaPg.16Regina Machado
213MAI/JUN-2009Pastoral LitúrgicaParedes-O abraço do temploPg.11Regina Machado
214JUL/AGO -2009Um estemunho vindo da ÁfricaA cobertura da igrejaPg.14Regina Machado
215SET/OUT-2009Do ventre da terra, o grito que vem da AmazôniaOs umbrais da igreja, portas e janelasPg.14Regina Machado
216NOV/DEZ- 2009Um caminho mistagógico feito em mutirãoA luz na igreja…Pg.16Regina Machado
   
217JAN/FEV-2010O que a Liturgia tem a ver com Ecologia?Segurança da igreja edifício…Pg.26Regina Machado
218MARC/ABR-2010Páscoa de Cristo, páscoa do universoA escolha do local da igrejaPg.23Regina Machado
219MAI/JUN-2010Celebrando a aliança cósmicaA escolha do local da igreja…segunda partePg.10Regina Machado
221SET/OUT-2010Potencial Eco-Pedagógico da Liturgia?O tamanho da igrejaPg.10Regina Machado
222NOV/DEZ- 2010Já é hora de despertarA munutenção da igrejaPg.11Regina Machado
   
223JAN/FEV-2011O sentido teológico da LiturgiaO passo a passo na construção de uma igrejaPg.27Regina Machado
225MAI/JUN-2011Formação litúrgica para jovens O passo a passo na construção de uma igreja IIIPg.26Regina Machado
226JUL/AGO-2011Um caminho sem volta O passo a passo na construção de uma igreja IVPg.27Regina Machado
227SET/OUT- 2011Piedade popular e liturgia O passo a passo na construção de uma igreja VPg.18Regina Machado
   
243MAI/JUN-2014Igreja ícone do MistérioO círculo da composição do espaçoPg.13Regina Machado

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O ESPAÇO NO TEMPO LITÚRGICO

ESPAÇO PARA CELEBRAR

Regina Machado é arquiteta. Escreveu dois livros pelas Paulinas: O local da celebração Arquitetura e Liturgia e O Espaço da Celebração.

Este artigo encontra-se na Revista de Liturgia 176 – março/abril de 2003, Sacramentalidade, artigo está nas pag. 10 a 14.

Celebramos nossas diversas liturgias nos diferentes tempos litúrgicos sempre no mesmo espaço, o mesmo salão, com os mesmos mobiliários, a mesma igreja. Também a vida possui o mesmo cenário para desenvolver sua liturgia, a mesma montanha, o mesmo rio, as mesmas árvores, o mesmo céu. Mas a natureza, como dia e a noite, as diferentes estações, o frio e o calor, a chuva e o vento, os diferentes perfumes, enriquece o cenário e nos tira da rotina.

Deveríamos nos inspirar na natureza para preparar os locais de celebração para as diferentes liturgias nos diferentes tempos litúrgicos.

A natureza tem o artifício da luz e da sombra, das cores, dos cheiros. No inverno, a tristeza é expressa com pouca luz, o dia é mais curto, poucas cores, as flores estão ausentes, o frio também nos deixa mais quietos, alguns animais até hibernam. No verão, a água abundante faz o verde mais bonito, há cores, ficamos mais animados, os dias são maiores que as noites. A primavera, com sua explosão de sensualidade, e o outono já nos preparam para a tristeza do inverno. Não seria a quaresma o outono a nos preparar para a morte e ressurreição que se segue?

Podemos e devemos enriquecer os espaços de celebração para as diferentes liturgias. Mas, atenção, sempre com muita discrição, sem exageros, sem esconder o essencial, sem perder o referencial. E sempre coerente com o tempo litúrgico.

Há várias formas de dinamizar o espaço.

A luz

A iluminação pode contribuir positiva ou negativamente para o desenvolvimento da liturgia. Para cada ambiente e função se tem um tipo determinado de luz e de intensidade de iluminação indicada. A iluminação de uma igreja não é a mesma de uma sala de aula, de uma loja ou a de um banco. Uma sala com luz fraca, pode dar sono aos alunos. Uma igreja iluminada excessivamente pode não ser acolhedora. Não é acolhedora também uma capela ou igreja iluminada com lâmpadas fluorescentes, mas indicadas para escritórios. O espaço não precisa estar iluminado todo por igual. Uma iluminação especial sobre alguma peça ou imagem ajuda a valorizá-las. O altar e a mesa da Palavra podem ter uma iluminação direta sobre eles. Em uma capela só para oração pouca luz é necessária. Se houver necessidade de iluminação para leitura, esta pode estar distribuida apenas sobre o espaço dos bancos. Pode ser usado também um dispositivo que regula a intensidade da luz. A iluminação privilegiada sobre alguns espaços, em detrimento de outros que ficam na sobra, cria um contraste que lembra a própria dinâmica da fé, que transita entre a luz e as trevas.

As cores

Tanto as cores como as texturas dos materiais de acabamento que revestem o interior e o exterior das igrejas podem ser aliados na vontade de se ter um lugar aconchegante que nos leve à participação, ao silêncio e à oração. Cores frias nos afastam, nos esfriam mesmo. O próprio nome das cores já diz tudo: cinza, gelo, neve. São cores que não ajudam a criar um ambiente aconchegante. Cores como areia, palha, terra, pérola, camurça, são cores quentes, aproximam, são mais confortáveis e aconchegantes. As cores também servem par ase valorizar e destacar algum ambiente ou alguma parede. Também as texturas são importantes. Uma parede texturizada com chapisco, por exemplo, pode ser destacada, ajuda na acústica e também fica mais aconchegante.

A decoração

É muito comum vermos construções feitas de qualquer jeito e depois, para tornar o lugar bonito e acolhedor, recorre-se ao artifício da decoração. Na maioria das vezes, como se diz, a emenda fica pior que o soneto. Qualquer decoração deve estar a serviço do projeto de arquitetura e de liturgia, deve fazer parte de uma unidade, não deve existir sozinha. A decoração não pode ser uma composição em si mesma, mas elemento de um todo. Por isso, o que a comunidade pretende fazer, sejam vitrais, pinturas, quadros, painéis, tudo deve ser muito bem pensado e discutido e deve ter sentido teológico e litúrgico. Se o local não é bonito nem agradável, pode ficar muito pior se começar a acrescentar coisas com o objetivo de embelezar. Aí o risco é o local ficar muito carregado e os fiéis não conseguirem entrar em clima de oração, ficarem dispersos com tanta coisa para ser vista ao mesmo tempo. Costumamos pecar pelo excesso. Por isso é melhor não correr riscos. É preferível sermos mais discretos, simples e sóbrios. Menos é mais nestes casos.

As flores

Aqui também, quanto menos melhor. É comum as pessoas valorizarem demais os arranjos, mais do que o altar e o ambão. O arranjo deve ser mínimo e muito discreto, não é ele que importa. Costuma-se pendurar nas paredes vasos com plantas tipo samambaias. Quando se entra na igreja, só se vê os vasos. O essencial desaparece. O material também deve er considerado. Plantas e flores de plástico são inconcebíveis no lugar da celebração. Um lugar onde a verdade é anunciada e deve ser experimentada, não pode ser decoração com coisas de mentira, e ainda o plástico – símbolo do descartável. A verdade não é descartável, é para sempre. E a verdade é bela.

Os vasos dever ser de material nobre como o barro, os cachepots de madeira, ferro. Gesso, plásticos, vasos revestidos de espelho ou de papel laminado não são indicados para o local da celebração. É muito importante conhecer a liturgia para poder atuar no espaço. Não serve qualquer decoração, qualquer cor, qualquer iluminação, qualquer arranjo de flores. Para cada liturgia a dinâmica é uma. Não basta enfeitar, é preciso enfeitar ou não enfeitar com um objetivo definido.

Vamos ver o caso das celebrações do Ciclo Pascal

O tempo da Quaresma

A Quaresma, entendida e vivida à luz do Tríduo Pascal da Paixão, Sepultura e Ressurreição de Cristo é o momento privilegiado para deixar de lado o velho que está em nós e na comunidade e e preparar para a vida nova. Os grandes temas na Quaresma são o batismo e a penitência. A abertura da Quaresma, na Quarta-feira de Cinzas, nos convida aos exercícios da esmola, da oração e do jejum.

Como pode o espaço contribuir para a vivência da Quaresma e dos exercícios da esmola, da oração e do jejum?

Podemos aproveitar a Quaresma para rever o espaço, se é um espaço próprio para oração, se oferece acolhimento, ser está aberto para Deus, para o outro e para o Mundo. Se o espaço está ajudando o fiel na oração, na sua comunicação com Deus e na sua comunicação com o outro e com o Mundo.

O jejum convida o fiel a realizar um gesto de liberdade e de respeito aos bens criados, convida à liberdade em relação à natureza e à cultura dizendo um não ao consumismo e estabelecendo um correto relacionamento com as coisas criadas. Jejuar também significa fazer espaço em si, espaço para Deus, para o próximo.

A maioria dos espaços litúrgicos estão como estamos todos nós: cheios do supérfluo e carentes do essencial. A Quaresma é o momento de limparmos, esvaziarmos os espaços, jogarmos fora o que é lixo e tirar fora o que de nada serve, tirar o excesso de decoração, vasos, plantas, mesinhas, toalhinhas e abrir espaço para o essencial.

O Tríduo Pascal

O Tríduo Pascal é o centro e a síntese da celebração do Mistério da Paixão-Morte e Ressurreição de Cristo no Ano Litúrgico.

A Missa da Ceia do Senhor na quinta-feira santa marca o início do Tríduo. O ambiente é de festa e alegria, a cor é branca nas flores, toalhas e velas. O espaço deve expressar um local de refeição partilhada, se possível com acesso de todos à mesa, ou de um grupo grande. As cadeiras podem rodear a mesa ou a mesa descer para assembleia. A mesa é o centro na celebração da Ceia.

Na Sexta-feira Santa, o luto e a dor tomam conta da comunidade e também do espaço. O clima é de silêncio, o altar fica despido, sem toalhas, não há velas, o ambiente fica mais escuro, podem ser diminuídas as luzes. A cor das vestes é vermelha, sinal do sangue de Cristo derramado na cruz. A cruz assume lugar de destaque tornando presentes as dores e os martírios de todos os oprimidos da terra. Deve haver espaço para que os fiéis demonstrem seu sofrimento e a prostação diante do altar.

A Vigília Pascal é a noite santa na qual renascemos. É aí que celebramos a vitória da luz, a vitória da liberdade sobre a opressão. A Vigília constitui a grande Páscoa anual dos cristãos, em que se celebram os Sacramentos da Iniciação Cristã e se renovam as promessas do batismo. Nessa noite, falam alto os símbolos da vida: o fogo, a luz, o óleo, o pão e o vinho. O ambiente é de alegria, festa, a cor é branca, há flores. A celebração é muito rica. Cada espaço deve ser muito bem preparado para as diferentes partes da celebração. O melhor é que não fique tudo restrito ao presbitério, mas que a comunidade possa caminhar, se deslocar e carregar a luz.

Para a liturgia da luz, deve ser preparado um fogo, uma fogueira do lado de fora da igreja, se possível. O círio, as velas, o incenso devem ter sido previstos. A liturgia da Palavra pode ser encenada ocupando diferentes ambientes da igreja. O importante é que todos possam acompanhar e participar. Para a liturgia do batismo o ideal é uma fonte batismal para imersão completa, o que não é impossível, mesmo pequenas comunidades têm conseguido com muito bom gosto ter sua fonte batismal fixa. Por fim, a liturgia eucarística.

A Páscoa de cada ano deve ser uma fonte rica e abundante de vida para a comunidade. Nela a comunidade deve se inspirar e se alimentar durante sua caminhada anual. A Páscoa é um marco de renovação da comunidade, fonte de vida, simbolizada na água do batismo e no pão e vinho da eucaristia.

Esse é o momento para a comunidade acabar também com o velho que tomou conta do espaço com o passar do tempo. Após a Páscoa, o espaço não pode continuar como era antes, assim como o cristão também não pode continuar o mesmo. Deve haver uma renovação, devemos sentir isso no ar, não se trata de botar abaixo e fazer tudo novo, mas de fazer novo o velho, ter um olhar e uma postura novas diante das coisas e do lugar.

Bibliografia
CARPANEDO, Penha e GUIMARAES, Marcelo. Dia do Senhor. Guia para as celebrações das comunidades. São Paulo, Paulinas, 1997.
BECKHÃUSER, Alberto. Celebrar a Vida Cristã. Petrópolis, Vozes, 1984.
MACHADO, Regina Céli de Albuquerque. O local da celebração. Arquitetura e liturgia. São Paulo, Paulinas, 2001