Regina Celi Machado

Tudo que acontece em nossas vidas tem forma. O nosso jeito de ser Igreja, a nossa teologia e pastoral também têm forma. E, até mesmo, formas geométricas. Aliás, a matemática está em nossas vidas muito mais do que podemos imaginar. Vale assistir, e com as crianças, o filme Matemágica, de 1959.

Na igreja vivemos em comunidades, e é em comunidade que fazemos comunhão, fraternidade, caridade, partilha e solidariedade. A vocação de todo cristão é a vida em comunidade. Se formos desenhar uma comunidade, qual seria esse desenho? Qual forma geométrica usaríamos? Forma e conteúdo andam sempre juntos. Você vê um bule e já sabe o que tem dentro. Uma panela de pressão lembra logo feijão. Não colocamos mingau em bule e nem leite em panela de pressão. Nos espaços ocupados pelos humanos também acontece do mesmo modo. A forma denuncia e anuncia um conteúdo. Sempre!

No 13º Intereclesial das CEBs em Juazeiro do Norte  no início desse ano, quando  as  pessoas  começaram a se organizar em círculos concêntricos para o “ofício da chegada”, subvertendo a forma tradicional – de uns de costas para os outros – juntando mais de 4 mil pessoas ao redor do Círio Pascal e nesta forma continuaram durante todas as celebrações do Intereclesial, ali, naquele círculo, estavam anunciando um conteúdo. A forma circular que esse povo reunido deixava claro no Intereclesial era o que eles vivem em comunidade, sabem o que é comunidade e defendem essa Igreja comunitária.

Por de trás desta forma há uma nova visão de Igreja, povo de Deus, proposta no Concílio Vaticano II, aprofundada pelas conferências do CELAM e concretizada no cotidiano das comunidades que acreditam na Igreja fiel ao evangelho, vivida pelas primeiras comunidades cristãs. Esta nova visão de Igreja supõe uma liturgia que não seja mera formalidade, mas experiência vital em que todos se sintam envolvidos numa relação de iguais. Aqui, as diferenças são colocadas a serviço desta igualdade fundamental.

Esta liturgia, por sua vez, exige um espaço que lhe corresponda. A imagem do círculo se apresenta como a mais adequada, ainda que o espaço disponível seja um quadrado, ou mesmo um retângulo. O círculo cabe dentro do quadrado. O que está em jogo é uma composição de espaço que estabeleça relações de igualdade, sem negar as diferenças de funções. O mesmo se pode dizer dos espaços da catequese de iniciação ou de qualquer outro encontro de formação.

A Instrução Geral do Missal Romano (257) diz que “é pre- ciso que a disposição geral do lugar sagrado esteja estruturada de tal maneira que possa apresentar a configuração da assembleia reunida e permita a participação disciplinada e orgânica de todos, favorecendo o desenvolvimento regular das funções de cada um”. Não se faz comunidade, não se reúne uma assembleia que possa participar efetivamente de uma celebração estando de costas uns para os outros  e com lugares privilegiados.

A mesa da Eucaristia, que é venerada com uma inclinação, um beijo e/ou incensação é única, como único é o Cristo. Esta mesa, que não tem frente, nem costas, nem lugares privilegiados é o centro para o qual converge  a Igreja em partilha e comunhão. Por isso deverá ser colocada “de forma a constituir o centro para o qual converge a atenção de toda a assembléia”. (IGMR, 262).

Regina Céli Machado.
Arquiteta. www.arquitetura- religiosa.arq.br

Regina Céli Machado é arquiteta sacra e escreve na Revista de Liturgia.

Fonte do Artigo:
MACHADO, Regina. O círculo da composição do espaço, Igreja ícone do Mistério. São Paulo, 243, p. 13, Mai/Jun 2014.

Compre esta Revista de Liturgia. Clique aqui.

Revista de Liturgia Ed 243 – Igreja, Ícone do Mistério

Deixe uma resposta